quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Continuidade do tempo

No sertão, a busca do simples.
O rústico ganha notoriedade.
Debaixo de uma copa e num banco de improviso, convite ao papo.
Nas portas das casas, o banco chega com a sombra.
Despreocupações com o tempo.
Tecnologia distante.
Comunicação só pelos recados.
De corredor da vida, a mero observador.
Sobre a madeira desgastada pelas intempéries, o descanso.
Reflexões concomitantes ao ócio...
Ao longo dos diálogos, interrupções sonoras do vento.
Pelas redondezas, folhas secas insistem em dar espaço à renovação.
Nos pássaros, sinais que o ritmo, embora lento, segue.
Imparcial e indiferente ao nosso movimento, o mundo continua a girar.

sábado, 22 de outubro de 2016

Partilha

Em todos os momentos da vida, devemos compartilhar.
Na religião, Jesus reparte o pão na Santa Ceia.
Este mesmo pão está presente em nossas vidas, manifestado das mais distintas formas.
Em várias situações diárias, somos convocados a dividir.
Estes chamados nos chegam indiretamente, através das sutilezas e entrelinhas presentes no cotidiano.
Nas conversas, a prática do diálogo, a atenção ao escutar, a aceitação da opinião do outro...
No relacionamento, a doação, a entrega.
Na mesa, a preocupação que há mais gente para comer.
Nas despesas, o rateio ao pagar.
Aos bens, a apropriação de quem é efetivamente o dono.
Nos acordos, o cumprimento conforme o contrato.
Na fila, o atendimento conforme a ordem de chegada.
Na comunidade, a disposição dos dons a serviço do coletivo.
O fluxo natural das coisas precisa desta partilha, do comprometimento de todos.
São, pois, necessárias estas concessões.

Algures

Pelas ruas, o calçamento, de maneira geral, é de pedra portuguesa.
Nas vielas mais antigas, o estilo pé de moleque, com destaque às pedras São Thomé.
Nas entranhas, o mato cobra constantemente pelo reparo e capina.
Pelas residências ao longo das contáveis ruas, casarões traduzem um período mais provinciano.
Existe na arquitetura um formato meio que padrão naquelas casas de pé direito alto, com janelas altas, protegidas por tramela.
Quem hoje vive nas casas já está, no mínimo, na quarta geração da fundação de suas estruturas de braúna.
Muitos proprietários nem mesmo possuem vínculo com as famílias outrora proprietárias, apenas são os novos donos. Mesmo assim, mantém-se de certa forma alguma preocupação em conservar o padrão das fachadas e todo o interior.
Ao forasteiro da cidade maior, a ideia da superioridade cultural pode ser percebida já nos primeiros minutos de conversa.
Pelas ladeiras, alguns comércios ainda mantém a tradição de vendas a granel, no estilo ‘secos e molhados’.
Fácil achar um armazém e comer um pedaço de queijo, combinado com rapadura, goiabada cascão...
Nem tão raro assim, a tina guardada na despensa tem a carne de porco e torresmo conservados na banha, mantendo-se tradição similar ao período dos tropeiros.
Sentado num caixote simulando um tamborete, a hora pode passar sem ser percebida entre conversas e casos, sobretudo da vida alheia.
Para hospedar, algumas pensões oferecem estadia.
Almoço pode ser com um cardápio variado, o que pode ser inusitado para quem não está acostumado com a vida rural.
Na longa mesa faz-se um carreirão: comidas de todo tipo.
Iguarias são preparadas num processo em que não se tem tanta pressa.
Fogão à lenha.
Frango, quando incluso no cardápio, é abatido no mesmo dia, ao ser apanhado no quintal ou terreiro.
Na mesa, o fubá que gerou o angu, veio moído do moinho de pedra.
O arroz, socado no pilão.
O café tem os grãos moídos pouco tempo antes da fervura, irradiando um cheiro de harmonia.
Nas receitas culinárias feitas ao longo da tarde, sempre com uma preocupação em fazer algo além do consumo normal da família, pois será oferecido um pouco à vizinhança.
Há um conceito solidário: não se devolve vasilha vazia.
Para os resfriados, indisposições e mal-estar em geral, há sempre um remédio caseiro, preparados com ervas medicinais que muitos plantam no quintal.
Às 6 da tarde, as badaladas do sino da matriz ecoam fielmente todos os dias.
Pela madrugada, o canto do galo começa com uma serenata até a saudação da manhã. E esta prática se repete pela maioria das casas, produzindo uma orquestra pelo arraial.
O relógio de bolso é um artigo típico dos homens, mas as horas podem se medir pelos sinais da natureza.
Às pessoas mais antigas, uma interação maior entre tempo e espaço.
Nas famílias, preocupações com a tradição e valores.
Exaltação da prática da virtude nem sempre seguida por quem verbaliza.
Muitos antagonismos entre o discurso e a prática.
A convivência com alguns poderá mostrar um contraste entre essência e aparência.
Os rótulos e a história antecipam algumas coisas e podem desvirtuar uma nova interpretação da realidade.
Se conveniente, versões podem valer mais que os fatos.
Na política, o coronelismo ultrapassa gerações, e sempre reaparece numa versão diferenciada com o decorrer dos anos. E aos novos, a continuidade das velhas ideias.
Em algum lugar ainda deve ser assim...

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Escolhas e partidas

Nas bolsas e mochilas, mais esperanças que mantimentos.
No horizonte, a possibilidade de dias melhores.
O sonho da terra prometida ainda existe no âmago de muita gente, sobretudo imigrantes, que cortam longas distâncias em busca de um melhor lugar para viver.
Ânimos reacendem à medida que uma nova janela de oportunidades se abre.
Tem-se um sopro de vida.
Aspirações e novos ideais ressurgem para uma nova seara. Local que possa trazer prosperidade e melhoria das condições de vida.
Normalmente, as grandes despedidas estão associadas com uma necessidade maior para a partida, posto que já deva existir certo desconforto emocional, financeiro, ausência de perspectivas...
Enfim, problemas variados se convergem num impulso adicional para aventurar-se.
No coração, o peso da saudade para quem fica e para quem vai.
Angústia que vai além do momento da despedida, e que transcende os anos.
A quem parte, a força do além para tentar converter essa ilusão em realidade, ou em algo que dê um mínimo de sentido às escolhas feitas.
E neste movimento, segue a vida...
Durante muitos momentos, neste itinerário imprevisível, o diálogo com a consciência vai questionar se valeram ou não a pena as escolhas. Algo meio ilusório, como se fosse possível reverter, integralmente, escolhas feitas.
Nos aeroportos, rodoviárias, estações, ou em outro algum lugar: sempre vai ser possível encontrar alguém comprando uma passagem para esta incerta e, muitas vezes, inevitável viagem.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Campinas - Bairro Vila Industrial

Um dos bairros mais antigos da cidade.Está ligado diretamente ao surgimento da cidade.
O seu processo de expansão e crescimento de forma mais expressiva está ligado à construção das ferrovias Paulista e Mogiana, que foi um marco expansionista dos séculos 19 e 20.Isso foi concomitante aos primórdios da industrialização do país, no qual Campinas se destacava como a principal cidade do interior paulista.
Num tempo em que a cidade era bem menor, era lá que ficava uma parte expressiva da periferia, com seu conjunto de cortiços bem famosos.
No passado, a própria estruturação física da linha ferroviária separava a cidade em praticamente dois mundos. Esta divisão era percebida até no aspecto social.
Conversando com pessoas que já residiam na cidade há muito tempo, mais especificamente em períodos que excedam a mais de meio século, havia um termo muito usado para se indicar o local de residência: “Você mora de qual lado da estação?”.
O próprio questionamento já assumia um caráter discriminadamente social.
Ao longo do tempo, foram sendo erguidas casas no bairro, de moradores que vinham de outras regiões do país e imigrantes, com destaque especial para os italianos, portugueses, sírios e libaneses.
Aos que já vinham do interior, muitos estavam abandonando o campo para viver na cidade, deixando assim a vida rural e agrária. Começa então a crescer uma cidade que depois se destacaria no cenário nacional.
É também, evidentemente, neste período, um dos primeiros e pequenos ciclos de êxodo rural no país.Com este crescimento, foi surgindo, naturalmente, o bairro.  
Analisando-se mais detalhadamente na história da cidade, constam nos autos da mesma, que a construção de casas neste bairro foi por uma iniciativa maior da aristocracia local, que eram os detentores dos poderes políticos e econômicos da época.Neste grupo, destacavam-se alguns pequenos empresários emergentes, que começavam a montar fábricas na cidade. Mas quem se dominava, mais expressivamente, eram os grandes cafeicultores, que tinham sua riqueza obtida do chamado Ouro Verde.
Estes aristocratas construiram as casas e, naturalmente, as vilas para alugar as mesmas aos operários da construção ferroviária e suas famílias.
O projeto incluía casas com tamanhos variados, para abrigar famílias de tamanhos distintos.
A arquitetura seguia uma tendência popular para a época. Em sua grande maioria, eram de somente um andar, mas havia algumas maiores de dois andares: os sobradinhos.
Dentre as vilas construídas, três merecem um destaque especial: a Manoel Dias, Manoel Borges e Vila Riza.
As Vilas Manoel Dias e Manoel Borges resistem ao tempo, e tem se discutido o tombamento cultural desta área na cidade, bem como uma eventual revitalização deste reduto. Ao passo que a Vila Riza, já não existe mais. Os seus poucos vestígios e ruínas, quando no momento de sua total destruição, deram espaços à construção do Terminal Ramos de Azevedo.
Andando recentemente pelas ruas da região, pude tirar algumas conclusões.
Numa comparação histórica: se olharmos o bairro com um foco social, e de maneira mais generalista, creio que o bairro continue se mantendo, ao longo das décadas, com uma mistura de famílias de classes sociais populares, misturada com a dos emergentes.
Sobre o trânsito…
Este já se “modernizou”, tornando-se caótico nos horários de maior fluxo de veículos. Neste aspecto, o sossego do passado dá lugar ao agito da vida contemporânea. Destaque especial para a Rua Sales de Oliveira, que é a mais conhecida do bairro. Esta no final do dia fica bem congestionada.
Nas construções atuais, percebe-se uma mistura do antigo e do novo, sem muita  preocupação real, na prática, com o aspecto patrimonial. É possível ver nitidamente casas decadentes, que resistiram ao tempo, mas que aos poucos vão sendo demolidas pela expansão imobiliária, com os conjuntos residenciais. Conjuntos estes que são erguidos sem uma completa análise dos seus impactos na região, como o reflexo imediato no trânsito, entre outros.
Saindo um pouco do bairro, e pensando mais na cidade, creio que algo também não tenha mudado. A separação da cidade em micro regiões e, naturalmente, em classes sociais. Esse conceito está enraizado, perceptivelmente, na essência da cidade, desde seu nascimento. Basta estudar e facilmente se chega a estas conclusões.
Campinas não é uma cidade que integra suas classes sociais. Há classes sociais vivendo em mundos separados e completamente desintegrados.
O nascimento da linha ferroviária, que separou a cidade em dois mundos lá no passado, foi tomando formas diferentes nas décadas seguintes, mas com a mesma tendência e princípio de separação social.
Isso pode ser percebido em décadas seguintes quando a cidade ultrapassou a Rodovia Anhanguera, depois a dos Bandeirantes… Estes marcos serviram mais uma vez para separar a cidade, e naturalmente as pessoas.
Diante de tudo isso, acredito que seja muito complexo pensar, hoje em dia, em qualquer tentativa de integração desta cidade que sempre foi, histórica e essencialmente, desintegrada.

Sobre gente e gerações

Estranha ideia essa que normalmente temos: a de olhar para o passado e acreditar que outrora a vida, no geral, era melhor.
De um modo geral, o cinema e a televisão ajudam-nos a ter esta vaga sensação. Isso ocorre por meio de filmes de períodos e gerações passadas.
Os cenários bem estruturados, condizentes e fiéis à decoração de uma época em que as cenas se passaram, ainda reforçam em muitos de nós o pensamento de que os tempos idos eram melhores.
Num outro plano, o da própria literatura, os amantes da boa leitura, que têm a capacidade de viajar na imaginação do ambiente narrado pelas nuances das letras, e de evadirem no tempo e no espaço, tendem a ter este tipo de interpretação também.
Nesta linha de pensamento, e agregado a um misto de nostalgia e saudosismo, muitos ficam com uma vaga e subjetiva certeza, que não pode ao menos ser comprovada.
Bom. Acredito que isto não faça sentido. E que seres humanos sejam iguais em sua essência, independente do contexto ou período histórico que vivem.
Sentimentos pelos quais temos que passar direta ou indiretamente são atemporais, não dependem, pois, de uma época.
De forma inevitável, creio que tenhamos que passar por grande parte dos sentimentos citados aqui: dor, angústia, traição, alegria, ansiedade, euforia, ódio, otimismo, perda, orfandade, fúria...
O que mudaria de uma década ou mesmo século para outro seriam fatores associados ao contexto histórico, tecnológico e social, bem como a forma como as coisas acontecem. Mas a sensação final deixada no coração seria, supostamente, a mesma.
Lendo livros de momentos e épocas bem variados, isso fica facilmente evidenciado pela forma que o lirismo dos autores é traduzido nos versos, nas palavras.
Partindo-se da Bíblia (o mais antigo), e avançando-se pelos vários séculos seguintes - por meio de algumas de suas literaturas até chegarmos ao presente momento – ficam explicitadas muitas passagens que convirjam para esta conjectura: a de que o ser humano é e sempre foi o mesmo.

Processo criativo

Na literatura, nas artes, na música...
De onde vem tanta inspiração?
Que caminhos percorrem as ideias desde sua concepção até a conclusão da obra?
O momento criativo é sutil, misterioso e não segue uma regra.
Cada artista a sua maneira.
É sabido que muitos recorrem, frequentemente, a recursos externos e artificiais como matéria prima à criação.
Com esta fonte alternativa, eles projetam suas ideias numa outra dimensão, evadindo suas mentes para outro plano, um tanto que distinto de sua realidade diária. Isso é, inclusive, expresso por alguns poetas em seus versos.
A busca constante da criação por este caminho alternativo pode acabar se convertendo em vício, e a poesia (de forma genérica) passa a ter outro significado que não é, literalmente, nada poético.
A estrada inspiradora da criação, inicialmente de percurso fácil, vai aos poucos ficando sinuosa, com muitas curvas e aclives, podendo vir a se converter num labirinto sem retorno.
Neste cenário, cria-se um enorme problema. E as pessoas mais próximas e os familiares (quando ainda há) é que sofrem e conseguem perceber isso.
Quem normalmente aprecia a arte de forma geral não vivencia muito este drama diário, e nem sequer imagina que ele exista.
Analisando e conhecendo biografias de artistas famosos que deixaram grandes marcas e legados, vejo que isso esteja presente quase que na vida da maior parte deles.
Álcool, drogas, barbitúricos, alucinógenos em geral...
Não conseguiria a arte passar imune a isso?
Não seria possível esta expressão e/ou manifestação sem este efeito colateral?
Precisaria ela ser criada em cima da dor, do drama?
Ou ainda, num caso extremo, com a entrega da própria vida?
O auge da criação precisaria nascer somente da entrega extrema à obra final?
Será que valeria a pena?
Parece que sim, sobretudo para quem é, verdadeiramente, artista.
A arte, para eles, teria um valor maior até que a própria vida: uma possibilidade de transcendência, tornando-os, pois, eternos.

sábado, 15 de outubro de 2016

Esfinge

Ao longo da conversa, discursos retóricos, gritos.
Do início moderado, os tons se convertem a um patamar mais exaltado.
Na expressão facial, o encadeamento das palavras se mistura com o pranto.
O apelo emocional e a efervescência do espetáculo destoam o assunto.
Sobre o diálogo, a imposição do monólogo.
Na linguagem corporal, os sentimentalismos personificam uma autenticidade.
O despojamento de quem assume o protagonismo denota uma transparência, o que não necessariamente quer dizer a verdade.
A quem somente foi imposta a possibilidade de escutar, mediante a sobreposição do interlocutor, fica a interpretação de que a verdade está contida no derramamento das lágrimas, ou mesmo nesta manifestação patética.
A suposta fala do coração umedecida de lágrimas endossa esta persuasão.
Sensacionalismos normalmente convencem mais, sobretudo para a maioria.
Por outro lado, na mente obscura do ator, um emaranhado de possibilidades nesta perfídia.
Conhecer as subjetividades deste, mesmo que isso possa ser difícil de acontecer, pode trazer algo revelador por detrás destas muralhas.
Neste labirinto, descobertas...
Valores e crenças remodelados pelas experiências vividas.
Condicionamentos se convertem em residentes fixos ou mesmo hóspedes nestas ideias.
Um universo de abstrações está inserido nesta caixa sombria e hermética: cadeados cegos.
Neste submundo, estão os medos, inseguranças, rancores, máscaras, frustrações, autoconfiança ausente, vingança, opressões, indiferença pela opinião alheia...
E, por mais curioso e inusitado que possa parecer, existe nesta pandora um pedido de ajuda, para sair deste abismo.
Difícil saber, como parte de um enigma, a razão pela qual muitos espetáculos desnecessários são feitos, mas na mente destas pessoas deve ter sim, uma lógica para esta esfinge.

domingo, 9 de outubro de 2016

Lembranças

Na ausência, a presença de outrora ainda dá sinais de quem um dia partiu.
Saudosismo e nostalgia pairam no ar.
Reflexões ao se abrir o baú de memórias.
Não há como não se envolver com a história de forma superficial.
Objetos distribuídos pela casa ainda reforçam esta existência, mesmo com o transcorrer dos anos.
Integrada com a sala, a cristaleira intacta é um passaporte para evadir-se no tempo.
No cardápio, alguns hábitos alimentares e receitas se mantêm.
Na janela, marcas sutis nas paredes deixaram resquícios de quem já esteve por lá ao longo de uma vida.
A tramela ainda existe, mas agora tem suporte adicional para reforçar a segurança.
O espaço cativo da cadeira agora se mostra desocupado, e ficou em segundo plano.
Pelo cantinho da parede, ainda resistente, o oratório está presente, e demonstra a contínua demonstração de fé e devoção aos céus.
A foto na penteadeira, conjuntamente às imagens, traduz um olhar atento, uma presença intermitente e viva ali quando deste momento.
Neste processo natural, não se pode falar, mas há uma profunda troca de olhares com quem já se foi, e diálogos se estabelecem. Pedidos e intercessões sempre se realizam.
Ao silêncio da sala, ventos uivam de todos os lados da casa, inclusive pelas frestas e gretas em expansão...
Na busca minuciosa dos sons, já não ecoam os pés que há tempos se arrastavam pela casa.
Nos armários, roupas já se foram, sendo doadas a muita gente necessitada.
No quarto, a cama já não está mais disponibilizada no mesmo local.
Ao longo da noite, o relógio não faz mais barulhos como dantes, e não é necessário mais dar corda no mesmo diariamente.
Com o transcorrer de anos, a constatação transcendente de um amor maternal a quem, biologicamente, não era.
No coração, a certeza de que, independente das ausências e, apesar de tudo, a vida deve continuar.

Divagações

Há um sentimento vagando por aí... Verbalizado nos mais extrovertidos. Ofuscado de distintas formas, sobretudo nos âmagos mais fechados,...