terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Companheira

Na fisionomia, a empatia cativante.
Nos diálogos com as ideias, a participação.
Em meio aos prantos secos, o consolo.
Com os murmúrios, ouvidos atentos.
Nas chatices e manias, aceitação.
Ao longo dos passeios, a presença constante.
Na ceia, a partilha.
Mesclada com as ausências, a saudade.
Nas brincadeiras, as gargalhadas.
Do amor, a semente, o fruto.
No singelo, a essência invisível.
Pelos meandros tortuosos, a companhia.
Ao inesperado, versatilidade.
Nas artes, o seu simples ganha notoriedade.
Pelas palavras, a sinceridade.
Aos vazios, o preenchimento.
Nos olhares, a comunicação.
Com as quedas, a força para levantar.
Aos sonhos contidos, a colaboração.
E no comprometimento, integridade, completude.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Alhures

Passos rumo ao horizonte.
Pegadas prontas para vagar.
Destino? Alhures.
Evasão do convencionalismo.
Abstração de ecos e ruídos retóricos.
Abrir-se ao que o vento tem a oferecer.
Apartar-se de receios.
Encorajar-se.
Desconstituir estruturas.
Rever conceitos.
Momentos de sossego para refletir.
Interpretar aforismos.
Dialogar com o pensamento.
Ouvir o tempo.
Atentar-se aos sinais.
Seguir adiante pelo deserto.
Andar por estradas de terra.
Conhecer o sertão.
Ver o que a linha imaginária quer mostrar.
Interpretar as entrelinhas, escondidas no labirinto das palavras.
O horizonte pode ser melhor visto através de uma nova janela da casa.

sábado, 26 de novembro de 2016

Travessias necessárias

Nos corredores principais, sinais que as coisas não andam bem.
Muita coisa parece ter mudado.
O silêncio tenta maquiar uma falsa sensação de tranquilidade e abonança, mas não tem como.
As expressões corporais traduzem nitidamente isso.
Nervos enrijecidos.
Se olhar nos olhos então, isto fica mais evidente.
Em algumas fisionomias, a convergência para um ar de mistério.
Não se faz necessária nenhuma linguagem verbal para denotar isso.
Passar inerte nesta travessia não tem como.
Um mínimo de perspicácia deflagraria a existência de várias incógnitas.
Até mesmo a cegueira conseguiria vislumbrar muita coisa.
Nestes mesmos caminhos, com inevitáveis e eventuais pedras, o fluxo necessário da vida.
Locais em que, necessariamente, precisam-se passar após o raiar dos dias, e que não há como fugir.
Nos ombros e nas costas, o transporte das cargas.
São pesos subjetivos que, na ausência de equilíbrio e serenidade, poderiam tirar-nos a nobreza e perseverança de enfrentar as intempéries do caminhar.
Viver exige isso de nós. Sempre.

domingo, 20 de novembro de 2016

Chegadas e partidas

Ao longo do tempo, chegadas e partidas.
Vivemos de pequenas despedidas no dia a dia.
E em grandes momentos, deixamos quem amamos.
Circunstâncias do cotidiano remetem-nos a necessidade de buscar novos horizontes.
No coração, dor para quem fica e para quem parte.
Ao decorrer de percepções da vida, vem uma questão...
Em qual destes corações pulsaria mais a saudade?
Haveria elementos comparativos para, ao menos, qualificar de qual lado a balança da emoção puxaria mais?
Subjetivamente sim.
De uma maneira geral, parece que a dor seria maior com quem fica.
Pela casa, lembranças das mais variadas associações com quem partiu.
Recordações variadas de quem se foi: no quarto, num canto da sala, na cozinha, em fotos expostas na parede...
Ao que fica, o silêncio.
E com essa quietude, maiores possibilidades de diálogos com o vazio.
Em cada cômodo, um consumo da ausência.
A própria casa induziria a se pensar mais esta falta.
Por outro lado, ao que parte, a vivência com o novo ajudaria a se abstrair, um pouco mais, deste laço apartado pela distância.
No pensamento de quem foi, já daria mais elementos para se supor o que quem ficou poderia estar fazendo, posto que o cenário e rotinas do cotidiano já sejam mais conhecidos. E o contrário? Aplicar-se-ia a mesma regra? Creio que não.
A isso tudo, respostas individuais agregadas de subjetividades.
Em cada coração, uma resposta.
Somente a certeza de que sentimento não se mede, e que para a saudade, não há remédio.

Posturas e reviravoltas

Com o perpassar na vida, momentos ecoam ser preciso arriscar, navegando em águas mais profundas.
Aos novos destinos, não necessariamente lugares, mas também contextos, situações, convivências, relacionamentos...
No âmago de quem segue, uma certeza oscilante: a de que a mudança vai ser para o melhor.
Convicções destas abdicações são imaginadas em cima de um universo de incertezas.
No arranque, a asserção com algo que, não obrigatoriamente, vai se concretizar.
E o coração, no ímpeto deste afastamento, acaba se esquecendo do que está deixando para trás.
Os olhos fixos no horizonte cegam, muitas vezes, qualquer tipo de análise para uma nova abordagem.
Ignora-se uma apreciação mais abrangente, que faça ver as decisões que se esteja tomando.
A questão é que, no decorrer do cotidiano e dos fatos, o tempo mostra algo distinto ao que outrora se vislumbrava.
E aí se começa a ver que: sementes não brotaram; frutos não floresceram; raízes não sustentaram.
A poeira baixou.
A euforia se converteu em realidade.
Ao pulso, o dissabor a um novo impulso.
E para onde ir?
Nos caminhos da vida, a sinalização sugere que se chegou numa rua sem saída, e o jeito é retornar.
Mas voltar?
Como regressar, se as portas do passado foram drasticamente fechadas, sem mesmo se despedir?
(..)
Não se sabe o que o futuro nos reserva.
Devem-se fechar as portas de maneira correta.
Ações de hoje podem impactar nosso futuro.
É importante pensar nisso.
Pode ser que, em momentos como este, só tenham duas alternativas: tentar retornar para onde se saiu um dia, ou dormir, literalmente, na sarjeta.
Mesmo que brusca, uma partida, não está, necessariamente, ligada ao encerramento de um ciclo.
Estradas podem nos trazer de volta aos mesmos lugares do passado.
Páginas seguintes de um livro podem ter o mesmo conteúdo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Empenho

Na mente, o cansaço.
Ao pensamento, a dificuldade de raciocínio.
A algumas lembranças, a perda de memória.
Na musculatura, sinais de fadiga.
Às argumentações, a retórica, o verbalizar em vão.
Ao paladar, a inapetência.
Aos ecos, a dissonância mesclada com a cacofonia.
Para o descanso, a insônia.
À semeadura, a infertilidade do solo.
Aos novos caminhos, pontes interditadas.
Em movimentos alternativos, resultados inertes.
Momentos...
Redes lançadas ao mar.
Navegação em águas distantes e profundas.
Sensação, muitas vezes, de quem luta.
Circunstâncias naturais da condição humana...
Espera de fatores externos para algo começar a dar resultado.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Continuidade do tempo

No sertão, a busca do simples.
O rústico ganha notoriedade.
Debaixo de uma copa e num banco de improviso, convite ao papo.
Nas portas das casas, o banco chega com a sombra.
Despreocupações com o tempo.
Tecnologia distante.
Comunicação só pelos recados.
De corredor da vida, a mero observador.
Sobre a madeira desgastada pelas intempéries, o descanso.
Reflexões concomitantes ao ócio...
Ao longo dos diálogos, interrupções sonoras do vento.
Pelas redondezas, folhas secas insistem em dar espaço à renovação.
Nos pássaros, sinais que o ritmo, embora lento, segue.
Imparcial e indiferente ao nosso movimento, o mundo continua a girar.

sábado, 22 de outubro de 2016

Partilha

Em todos os momentos da vida, devemos compartilhar.
Na religião, Jesus reparte o pão na Santa Ceia.
Este mesmo pão está presente em nossas vidas, manifestado das mais distintas formas.
Em várias situações diárias, somos convocados a dividir.
Estes chamados nos chegam indiretamente, através das sutilezas e entrelinhas presentes no cotidiano.
Nas conversas, a prática do diálogo, a atenção ao escutar, a aceitação da opinião do outro...
No relacionamento, a doação, a entrega.
Na mesa, a preocupação que há mais gente para comer.
Nas despesas, o rateio ao pagar.
Aos bens, a apropriação de quem é efetivamente o dono.
Nos acordos, o cumprimento conforme o contrato.
Na fila, o atendimento conforme a ordem de chegada.
Na comunidade, a disposição dos dons a serviço do coletivo.
O fluxo natural das coisas precisa desta partilha, do comprometimento de todos.
São, pois, necessárias estas concessões.

Algures

Pelas ruas, o calçamento, de maneira geral, é de pedra portuguesa.
Nas vielas mais antigas, o estilo pé de moleque, com destaque às pedras São Thomé.
Nas entranhas, o mato cobra constantemente pelo reparo e capina.
Pelas residências ao longo das contáveis ruas, casarões traduzem um período mais provinciano.
Existe na arquitetura um formato meio que padrão naquelas casas de pé direito alto, com janelas altas, protegidas por tramela.
Quem hoje vive nas casas já está, no mínimo, na quarta geração da fundação de suas estruturas de braúna.
Muitos proprietários nem mesmo possuem vínculo com as famílias outrora proprietárias, apenas são os novos donos. Mesmo assim, mantém-se de certa forma alguma preocupação em conservar o padrão das fachadas e todo o interior.
Ao forasteiro da cidade maior, a ideia da superioridade cultural pode ser percebida já nos primeiros minutos de conversa.
Pelas ladeiras, alguns comércios ainda mantém a tradição de vendas a granel, no estilo ‘secos e molhados’.
Fácil achar um armazém e comer um pedaço de queijo, combinado com rapadura, goiabada cascão...
Nem tão raro assim, a tina guardada na despensa tem a carne de porco e torresmo conservados na banha, mantendo-se tradição similar ao período dos tropeiros.
Sentado num caixote simulando um tamborete, a hora pode passar sem ser percebida entre conversas e casos, sobretudo da vida alheia.
Para hospedar, algumas pensões oferecem estadia.
Almoço pode ser com um cardápio variado, o que pode ser inusitado para quem não está acostumado com a vida rural.
Na longa mesa faz-se um carreirão: comidas de todo tipo.
Iguarias são preparadas num processo em que não se tem tanta pressa.
Fogão à lenha.
Frango, quando incluso no cardápio, é abatido no mesmo dia, ao ser apanhado no quintal ou terreiro.
Na mesa, o fubá que gerou o angu, veio moído do moinho de pedra.
O arroz, socado no pilão.
O café tem os grãos moídos pouco tempo antes da fervura, irradiando um cheiro de harmonia.
Nas receitas culinárias feitas ao longo da tarde, sempre com uma preocupação em fazer algo além do consumo normal da família, pois será oferecido um pouco à vizinhança.
Há um conceito solidário: não se devolve vasilha vazia.
Para os resfriados, indisposições e mal-estar em geral, há sempre um remédio caseiro, preparados com ervas medicinais que muitos plantam no quintal.
Às 6 da tarde, as badaladas do sino da matriz ecoam fielmente todos os dias.
Pela madrugada, o canto do galo começa com uma serenata até a saudação da manhã. E esta prática se repete pela maioria das casas, produzindo uma orquestra pelo arraial.
O relógio de bolso é um artigo típico dos homens, mas as horas podem se medir pelos sinais da natureza.
Às pessoas mais antigas, uma interação maior entre tempo e espaço.
Nas famílias, preocupações com a tradição e valores.
Exaltação da prática da virtude nem sempre seguida por quem verbaliza.
Muitos antagonismos entre o discurso e a prática.
A convivência com alguns poderá mostrar um contraste entre essência e aparência.
Os rótulos e a história antecipam algumas coisas e podem desvirtuar uma nova interpretação da realidade.
Se conveniente, versões podem valer mais que os fatos.
Na política, o coronelismo ultrapassa gerações, e sempre reaparece numa versão diferenciada com o decorrer dos anos. E aos novos, a continuidade das velhas ideias.
Em algum lugar ainda deve ser assim...

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Escolhas e partidas

Nas bolsas e mochilas, mais esperanças que mantimentos.
No horizonte, a possibilidade de dias melhores.
O sonho da terra prometida ainda existe no âmago de muita gente, sobretudo imigrantes, que cortam longas distâncias em busca de um melhor lugar para viver.
Ânimos reacendem à medida que uma nova janela de oportunidades se abre.
Tem-se um sopro de vida.
Aspirações e novos ideais ressurgem para uma nova seara. Local que possa trazer prosperidade e melhoria das condições de vida.
Normalmente, as grandes despedidas estão associadas com uma necessidade maior para a partida, posto que já deva existir certo desconforto emocional, financeiro, ausência de perspectivas...
Enfim, problemas variados se convergem num impulso adicional para aventurar-se.
No coração, o peso da saudade para quem fica e para quem vai.
Angústia que vai além do momento da despedida, e que transcende os anos.
A quem parte, a força do além para tentar converter essa ilusão em realidade, ou em algo que dê um mínimo de sentido às escolhas feitas.
E neste movimento, segue a vida...
Durante muitos momentos, neste itinerário imprevisível, o diálogo com a consciência vai questionar se valeram ou não a pena as escolhas. Algo meio ilusório, como se fosse possível reverter, integralmente, escolhas feitas.
Nos aeroportos, rodoviárias, estações, ou em outro algum lugar: sempre vai ser possível encontrar alguém comprando uma passagem para esta incerta e, muitas vezes, inevitável viagem.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Campinas - Bairro Vila Industrial

Um dos bairros mais antigos da cidade.Está ligado diretamente ao surgimento da cidade.
O seu processo de expansão e crescimento de forma mais expressiva está ligado à construção das ferrovias Paulista e Mogiana, que foi um marco expansionista dos séculos 19 e 20.Isso foi concomitante aos primórdios da industrialização do país, no qual Campinas se destacava como a principal cidade do interior paulista.
Num tempo em que a cidade era bem menor, era lá que ficava uma parte expressiva da periferia, com seu conjunto de cortiços bem famosos.
No passado, a própria estruturação física da linha ferroviária separava a cidade em praticamente dois mundos. Esta divisão era percebida até no aspecto social.
Conversando com pessoas que já residiam na cidade há muito tempo, mais especificamente em períodos que excedam a mais de meio século, havia um termo muito usado para se indicar o local de residência: “Você mora de qual lado da estação?”.
O próprio questionamento já assumia um caráter discriminadamente social.
Ao longo do tempo, foram sendo erguidas casas no bairro, de moradores que vinham de outras regiões do país e imigrantes, com destaque especial para os italianos, portugueses, sírios e libaneses.
Aos que já vinham do interior, muitos estavam abandonando o campo para viver na cidade, deixando assim a vida rural e agrária. Começa então a crescer uma cidade que depois se destacaria no cenário nacional.
É também, evidentemente, neste período, um dos primeiros e pequenos ciclos de êxodo rural no país.Com este crescimento, foi surgindo, naturalmente, o bairro.  
Analisando-se mais detalhadamente na história da cidade, constam nos autos da mesma, que a construção de casas neste bairro foi por uma iniciativa maior da aristocracia local, que eram os detentores dos poderes políticos e econômicos da época.Neste grupo, destacavam-se alguns pequenos empresários emergentes, que começavam a montar fábricas na cidade. Mas quem se dominava, mais expressivamente, eram os grandes cafeicultores, que tinham sua riqueza obtida do chamado Ouro Verde.
Estes aristocratas construiram as casas e, naturalmente, as vilas para alugar as mesmas aos operários da construção ferroviária e suas famílias.
O projeto incluía casas com tamanhos variados, para abrigar famílias de tamanhos distintos.
A arquitetura seguia uma tendência popular para a época. Em sua grande maioria, eram de somente um andar, mas havia algumas maiores de dois andares: os sobradinhos.
Dentre as vilas construídas, três merecem um destaque especial: a Manoel Dias, Manoel Borges e Vila Riza.
As Vilas Manoel Dias e Manoel Borges resistem ao tempo, e tem se discutido o tombamento cultural desta área na cidade, bem como uma eventual revitalização deste reduto. Ao passo que a Vila Riza, já não existe mais. Os seus poucos vestígios e ruínas, quando no momento de sua total destruição, deram espaços à construção do Terminal Ramos de Azevedo.
Andando recentemente pelas ruas da região, pude tirar algumas conclusões.
Numa comparação histórica: se olharmos o bairro com um foco social, e de maneira mais generalista, creio que o bairro continue se mantendo, ao longo das décadas, com uma mistura de famílias de classes sociais populares, misturada com a dos emergentes.
Sobre o trânsito…
Este já se “modernizou”, tornando-se caótico nos horários de maior fluxo de veículos. Neste aspecto, o sossego do passado dá lugar ao agito da vida contemporânea. Destaque especial para a Rua Sales de Oliveira, que é a mais conhecida do bairro. Esta no final do dia fica bem congestionada.
Nas construções atuais, percebe-se uma mistura do antigo e do novo, sem muita  preocupação real, na prática, com o aspecto patrimonial. É possível ver nitidamente casas decadentes, que resistiram ao tempo, mas que aos poucos vão sendo demolidas pela expansão imobiliária, com os conjuntos residenciais. Conjuntos estes que são erguidos sem uma completa análise dos seus impactos na região, como o reflexo imediato no trânsito, entre outros.
Saindo um pouco do bairro, e pensando mais na cidade, creio que algo também não tenha mudado. A separação da cidade em micro regiões e, naturalmente, em classes sociais. Esse conceito está enraizado, perceptivelmente, na essência da cidade, desde seu nascimento. Basta estudar e facilmente se chega a estas conclusões.
Campinas não é uma cidade que integra suas classes sociais. Há classes sociais vivendo em mundos separados e completamente desintegrados.
O nascimento da linha ferroviária, que separou a cidade em dois mundos lá no passado, foi tomando formas diferentes nas décadas seguintes, mas com a mesma tendência e princípio de separação social.
Isso pode ser percebido em décadas seguintes quando a cidade ultrapassou a Rodovia Anhanguera, depois a dos Bandeirantes… Estes marcos serviram mais uma vez para separar a cidade, e naturalmente as pessoas.
Diante de tudo isso, acredito que seja muito complexo pensar, hoje em dia, em qualquer tentativa de integração desta cidade que sempre foi, histórica e essencialmente, desintegrada.

Sobre gente e gerações

Estranha ideia essa que normalmente temos: a de olhar para o passado e acreditar que outrora a vida, no geral, era melhor.
De um modo geral, o cinema e a televisão ajudam-nos a ter esta vaga sensação. Isso ocorre por meio de filmes de períodos e gerações passadas.
Os cenários bem estruturados, condizentes e fiéis à decoração de uma época em que as cenas se passaram, ainda reforçam em muitos de nós o pensamento de que os tempos idos eram melhores.
Num outro plano, o da própria literatura, os amantes da boa leitura, que têm a capacidade de viajar na imaginação do ambiente narrado pelas nuances das letras, e de evadirem no tempo e no espaço, tendem a ter este tipo de interpretação também.
Nesta linha de pensamento, e agregado a um misto de nostalgia e saudosismo, muitos ficam com uma vaga e subjetiva certeza, que não pode ao menos ser comprovada.
Bom. Acredito que isto não faça sentido. E que seres humanos sejam iguais em sua essência, independente do contexto ou período histórico que vivem.
Sentimentos pelos quais temos que passar direta ou indiretamente são atemporais, não dependem, pois, de uma época.
De forma inevitável, creio que tenhamos que passar por grande parte dos sentimentos citados aqui: dor, angústia, traição, alegria, ansiedade, euforia, ódio, otimismo, perda, orfandade, fúria...
O que mudaria de uma década ou mesmo século para outro seriam fatores associados ao contexto histórico, tecnológico e social, bem como a forma como as coisas acontecem. Mas a sensação final deixada no coração seria, supostamente, a mesma.
Lendo livros de momentos e épocas bem variados, isso fica facilmente evidenciado pela forma que o lirismo dos autores é traduzido nos versos, nas palavras.
Partindo-se da Bíblia (o mais antigo), e avançando-se pelos vários séculos seguintes - por meio de algumas de suas literaturas até chegarmos ao presente momento – ficam explicitadas muitas passagens que convirjam para esta conjectura: a de que o ser humano é e sempre foi o mesmo.

Divagações

Há um sentimento vagando por aí... Verbalizado nos mais extrovertidos. Ofuscado de distintas formas,  sobretudo nos âmagos mais fechado...