terça-feira, 29 de setembro de 2015

Falando um pouco de fé

Viajar no desconhecido.
Incertezas que consomem o coração de quem vai rumo ao horizonte…
Ao longo da história, por vários momentos, há relatos dessa dúvida com o que nos espera.
No período de retorno do povo judeu à Terra Prometida, Moisés confronta-se com o medo, mas seguiu em frente com sua fé para que o Mar Vermelho se abrisse.
Pedro, ao pisar, inicialmente sobre as águas, vê seus pés afundarem.
No período das navegações, início da Idade Moderna, um receio geral existia nas pessoas por estarem desbravando o mundo além do mar. Este momento foi relatado nos Lusíadas, obra de Camões.
O medo tinha até um nome: o gigante Adamastor.
Hoje não é diferente, a busca de novos caminhos, de novas alternativas, sempre consome no universo humano um certo receio.
No nosso cotidiano, este sentimento somente muda de nome, endereço, circunstância e fatores afins…
O novo é sempre agregado de dúvidas.
Pessoas mais abertas às mudanças acabam sofrendo menos com a tomada de decisão, porém o sofrimento delas "costuma" ser maior, naturalmente, com as consequências de suas ações, que nem sempre são associadas ao êxito.
Por outro lado, imagino que a pessoa cautelosa sofra mais com a indecisão que com a ação.
De modo geral, todos sofrem de alguma forma com as decisões rumo ao horizonte nebuloso.
Olhando nos arredores do cotidiano de pessoas conhecidas, as histórias alheias de insucesso servem também como fatores negativistas à nossa tomada de decisão.
Algo até natural, posto que a vida tem muito mais derrotas que vitórias.
Se observarmos a vida ao longo de toda a humanidade, acredito que todos os grandes personagens que se dignificaram por suas decisões, tenham partido, na maioria das vezes, de condições não tão propícias para realizarem as suas grandes mudanças.
No estudo de grandes homens que traçaram os rumos de nossa história, tenho percebido que o medo (algo inevitavelmente presente na essência do homem) sempre habitou o universo e a mente destas pessoas.
Entretanto, muito supostamente, eles todos tiveram algo em comum, que é a fé.
Fundamentalmente, esta não exige que nada esteja a seu favor. Ela somente necessita que você a tenha e a consuma integralmente, e que todos os seus atos sejam condizentes com o comportamento de uma pessoa que o tempo todo acredita que algo vai dar certo.
Com este conceito, o impossível começa a ser possível, caso haja, obviamente, uma autorização maior e superior da vontade de Deus.
Por mais dedicado que sejamos nas nossas ações, a decisão final é sempre com ele, à partir, claro, das decisões que tomamos.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Amizade

Nas redes sociais, 500, 1000 amigos.
Os conceitos contemporâneos de amizade estão contraditórios.
Impossível ter tantos amigos.
Amizade de verdade, daquela que se mantém ao longo dos anos, é algo cada vez mais raro, e é algo extremamente seletivo, que dificilmente se passaria de umas 10 pessoas.
Mesmo a pessoa mais altruísta e carismática do mundo, em condições humanas, seria impossível ter tanto amigos. Isso porque ela consome tempo, dedicação, disponibilidade incondicional. 
E na correria da vida contemporânea, falta tempo para conseguir se construir estes laços profundos.
É um paradoxo.
Quanto mais as rotinas do cotidiano se aceleram, menos horas restam para o cultivo e desenvolvimento dos relacionamentos. 
Nesta aceleração das coisas, tudo fica superficial, temporário. Nada é perene.
Outro ponto...
Creio que a sua comprovação exija também o fator tempo...
Fazendo-se uma associação do mesmo com a vida, este tem como característica o consumo e posterior degradação de tudo. 
Uma simples observação na natureza pode traduzir isso pelos sinais. 
A própria vida das pessoas faz parte deste ciclo de desgaste, de consumo.
A amizade, seguindo este mesmo fluxo natural, passa também por esta inevitável intempérie.
Resistir a tudo isso, e continuar sendo categorizado como verdadeiro amigo é um veredicto raro e para poucos, mas alcançável e que vale a pena.
Se no fim da vida se obtiver uma certeza destas, é sinal de que um enorme patrimônio foi construído. 
Um verdadeiro castelo, que sequer insinua ou dissimula ser de areia.
Que todos possamos ter pelo menos uma constatação positiva dessas.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Observações do cotidiano

Por todos os locais que se vá hoje, o celular acompanha as pessoas.
É algo inseparável da maioria delas.
Um simples desaparecimento ou perda do mesmo causa toda uma desestruturação no cotidiano.
Para muita gente, ele é algo inseparável. 
É praticamente mais um membro do corpo.
Agregado a ele, há uma série de funcionalidades, dentre elas a câmera fotográfica, redes sociais...
Para tudo que se faz no cotidiano, há uma necessidade extrema de se tirar fotos e registrar isso.
E a mobilidade do celular propicia a aceleração desta alienação, desta paranoia.  
Pessoas estão mais preocupadas em fotografar e registrar os fatos do que propriamente viver o momento.
Há nas pessoas um comportamento obsessivo de que os outros necessitem saber o que você está fazendo. 
É como se os outros precisassem saber que você está feliz, que tem muitos amigos.
Uma necessidade enorme de compartilhar algo, que a meu ver, é extremamente irrelevante, banal e inútil.
As redes sociais são a prova disso.
Amizades virtuais aos montes, amigos incontáveis.
Pessoas que de repente se viram somente uma vez na vida já são intitulados como amigos.
Quanta futilidade.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

De volta à remota casa velha

Voltando ao sossego...
Nas paredes, retratos diversos que evocam histórias da família e conhecidos que, esporadicamente, circundavam naquele cenário.
Histórias boas que não voltam mais.
Momentos de grande felicidade e alegria, regados como uma grande dose de simplicidade.
A serpentina não existe mais.
Por várias décadas, era lá que se esquentava a água do chuveiro.
O enorme trabalho de preparo da lenha não é mais necessário.
Já não há mais força física para tanto esforço.
O café já não sai do fogão tão cedo. E, às vezes, nem sai.
O canto do galo da madrugada já não é mais o despertador.
Não é mais preciso levantar tão cedo.
A correria de outrora dá, agora, lugar aos passos mais lentos.
As longas conversas se convertem ao silêncio.
Cada vez mais se escutam os ecos de passos quase solitários pela casa, bem como dos sons da natureza.
O tempo levou não somente os anos, mas as forças físicas e, principalmente, uma pessoa muito querida, minha avó.
Mesmo depois de quase 10 anos, as paredes traduzem a ideia de que ela ainda está ali, com sua ternura e sabedoria.
O grande silêncio convida e evoca um diálogo com o tempo, com as fotos, com as paredes.
Com força e longevidade, há quase um século, meu avô passando os dias neste cenário...
Por longos anos, a mesa da cozinha ou o sofá da sala estiveram à disposição para uma boa conversa.
A calorosa receptividade sempre tornavam as idas convidativas.
Muitos parentes distantes sempre o visitaram com este simples e nobre propósito.
Longo acesso por estrada de terra, fadado às constantes intempéries, com este singelo objetivo: o encontro.
Filhos? Muitos e espalhados.
Uns próximos, outros um pouco distantes. Mas sempre presentes.
Normalmente, para as visitas de beija-flor, o recomendado é que fossem de papagaio.
A casa grande ficou ainda maior com poucas pessoas.
Por mais que não faltem as visitas, há presença da solidão.
Nas ruas, um mínimo avanço de desenvolvimento com as ruas calçadas.
Passeios de charrete ou a cavalo, no improviso, convidam sempre à cachoeira, resistente à modernidade.
O contexto evoca, inevitavelmente, ares de saudosismo.
No quintal, um imenso terreno de surpresas.
Diversidade de flora e fauna...
Com um barquinho rústico no fundo sempre disponível ao passeio pelo rio até o remanso.
Em poucos lugares, o sossego e tranquilidade se mostram tão presentes.
Neste oásis, a velocidade não faz muita questão em acelerar.
A pressa dá lugar à serenidade, e a tecnologia também não insiste muito em chegar por lá.
Voltar lá... Sempre valerá a pena...

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Notas sobre plantio de uma árvore

Um dia desses, partiu a ideia de plantar uma árvore em homenagem a minha filha.
Esta deveria ter uma copa cheia, com muita sombra.
Na sua estação de florada, deveria produzir um tapete natural com suas flores, digno de uma fotografia cinematográfica.
Começo a pesquisar espécies mais apropriadas com nosso clima, com a busca detalhada de informações...
De repente, vou descobrindo um monte de detalhes sutis que eu nunca havia imaginado que existissem em botânica.
O plantio planejado sugere vários critérios que, se seguidos, tendem a produzir e criar condições favoráveis para a mesma crescer plenamente, seguindo suas características naturais.
Bom. O assunto foi se desenvolvendo um pouco além do básico...
Há uma infinidade de publicações botânicas na Internet que nos auxiliam, e muito, na tomada de decisão, sugerindo-se várias espécies.
(...)
Comecei a imaginar que minha filha pudesse já ver a mesma no seu esplendor...
Seria um presente a ela que duraria toda sua vida.
E sempre que ela olhasse, ou estivesse na mesma, lembrar-se-ia de mim e, naturalmente, da homenagem feita a ela. Poderia sentar tranquilamente debaixo da mesma sem se preocupar com as horas, refrescar-se na sua sombra, ler algum livro, tirar fotos...
A ideia foi indo, mas faltou um detalhe básico: onde plantar a mesma nesta selva de pedra?
Não tenho espaço privativo para tal.
Morando ainda em apartamento, esta possibilidade chegaria quase no impossível.
Comprar um terreno foi uma alternativa, mas dadas as circunstâncias financeiras atuais, também me inviabilizaria neste plano, tendo em vista ainda que a área devesse contemplar não só o espaço físico para o plantio, mas o de uma casa, área adicional...
De tudo isso, percebi que a única alternativa seria numa praça. Enfim, algum local público. Mas, esta árvore estaria sujeita ao vandalismo de toda espécie, que não lhe dariam o mesmo valor, podendo até vir, num caso extremo, cortá-la em algum momento. A privacidade também não existiria.
No final das contas, o projeto não foi ainda adiante. Pude constatar é que a realidade ficou, ainda que temporariamente, um pouco distante dos sonhos.
Curiosidade: o que para muitas outras gerações (30, 40 anos atrás) era algo simples, hoje nas grandes cidades esta exclusividade de espaços está diminuindo. Com o crescimento das metrópoles e sua estrutura urbana, fica mais difícil, e caro, ter um espaço privativo. Digo algo só para você e sua família. Isso se tornou cada vez mais raro e custoso. A expansão imobiliária também está colaborando com isso, e impedindo que você tenha seus próprios espaços.
O pensamento não morreu, só entrou num estágio latente, assim como uma semente.
Esta semente está bem guardada e não vai se perder. Ainda vai ser plantada noutro momento, em que as condições sejam mais favoráveis.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Campinas - Voltando pra casa

No pensamento, ideias, e algumas preocupações inevitáveis com a vida, a família.
Atenção redobrada no trânsito: radares e amarelinhos numa verdadeira operação de guerra. Um descuido... e multa.
Estou na região central de Campinas, em cima do Viaduto Cury, e o trânsito está parado.
Daqui de cima, vejo uma das áreas mais antigas da cidade, povoada (muito provavelmente) no seu início pela proximidade com a Estação Ferroviária.Lugar este que, no início do século passado, era muito mais frequentado e seguro.Aliás, os meios de transportes acabam influenciando diretamente nessa dinâmica de ocupação urbana, e fazem com que o comércio cresça nos seus arredores com o propósito de atender às demandas de pessoas.
A estação era um local em que a maioria das notícias e novidades chegavam.
Ponto de muitas tristezas, alegrias e ansiedades nas chegadas e partidas de pessoas.
Interessante é que muitos frequentavam o local não necessariamente por estarem aguardando algum conhecido, mas também pela curiosidade alheia de quem viajava.
Atualmente na estação, funciona um centro cultural e oficinas de trabalho. 
No passado, havia abaixo deste concreto uma praça famosa: o Lago do Cisnes.
Com o objetivo de integrar o centro com a Vila Industrial, extinguiram o espaço para dar lugar a avenidas.
Ainda debaixo deste viaduto, funciona hoje um comércio popular, integrado com o Terminal Central, e em seu entorno se encontra praticamente de tudo que se possa imaginar.
Analisando-se rapidamente a área, percebe-se uma região visivelmente decadente. Uma das mais descuidadas da cidade. 
Na verdade, isto é uma tendência natural das grandes cidades no país: a degradação e precariedade das áreas centrais e mais antigas.
Neste momento, a combinação de cores em várias tonalidades vão marcando a despedida de mais um dia de trabalho.
No horizonte, vejo o dia entardecendo. 
O sol vai encerrando mais um dia. 
Fica a sensação de que ele quer deixar algum recado: de que a esperança não está indo embora. E que, amanhã, a aurora vai marcar o nascimento de mais um dia de vida. De lutas e esperanças renovadas.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Histórias do Tempo

Voltar à casa antiga...
Muita coisa mudou...
O assoalho já demonstra sinais da ação do tempo... traduz e explicita o desgaste da vida.
Ele é uma simples metáfora, um tanto quanto eufemística, para exaltar algo maior, que é a degradação dos laços familiares.
A estrutura física da madeira é, pois, mero pretexto.
Laços afetivos separados pelas circunstâncias que a vida foi traçando, revelando.
Máscaras que vão caindo...
O único elo que ficou, e inevitável, é o genético.
Vínculos de amizade e companheirismo não existem mais.
A cisma é tão grande que se, possível fosse, segmentaria até os laços sanguíneos.
Estranho a convivência com parentes muito próximos no passado, mas que hoje se converteram em meros estranhos.
Como imaginar que estas pessoas que foram tão ligadas um dia (cada vez mais distante), e que na vida pareciam ter um laço tão forte podem ser capazes de causar tanta decepção?
Quanta transformação!
Com o tempo, às raízes dos relacionamentos foram adicionadas a decepção, a falsidade enfim... adubos desta natureza.
No momento, o desencadeamento dos fatos frente a uma perspectiva futura seguem a tendência extremamente cética, reafirmando-se a todo momento que isso não é um pesadelo, mas algo real.
Nos cenários inevitáveis de alguns reencontros, prevalece e se confirma a certeza de que os fatos são sim verdadeiros.
Neste contexto, exaltam também manifestações de indiferença destas pessoas com tudo o que se passa... e se faz pensar de tudo...
Até onde pode ir a frieza de um ser humano?
Como entender tudo isso?
É difícil responder, mas se analisarmos tudo isso sob uma visão religiosa, pode-se ter um veredicto parcial e positivo disso tudo. Aliás, para entender tudo isso somente com fundamentação divina.
A única interpretação factível para o momento é que a traição, a perda, a decepção e todo tipo de sentimentos afins sejam componentes inevitáveis de nosso engrandecimento pessoal, espiritual.
Isso faz também reforçar algo extremamente importante: que nossa confiança e certeza só podem ser depositadas em Deus, não nas pessoas.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Campinas - Andando pelo Centro

Chego de manhã no terminal de ônibus, depois de sair de casa bem cedo, enfrentar um bom tempo no ônibus. Inúmeras paradas para o sobe e desce de passageiros.
Finalmente, estou na região central de Campinas.
Neste novo dia que se inicia, olho pro relógio. É bem cedo.
No comércio, algumas portas começam a se abrir...
Nas padarias e lanchonetes, já abertas, um movimento considerável de pessoas tomando café ... uns meio apressados, outros mais sossegados, com condições de analisar o movimento das pessoas.
No cardápio, o que mais se consome: de bebida: café e pingado; para comer: pão na chapa e principalmente pão de queijo.
De todas das cidades que já conheci, nenhum lugar come tanto pão de queijo quanto aqui. Talvez pela praticidade para quem vende (dado a industrialização deste produto). E pelo preço para quem compra. Combinado, naturalmente, com o paladar... ele é disparado o produto mais consumido na cidade para quem toma café na rua.
Pelas manhãs, é muito comum se perceber nos apressados levando um pacotinho. Com um, dois, três...
O corre corre é para a maioria, mas nem todos estão neste ritmo frenético, estes vão as padarias como um ritual, com tempo para conversar com pessoas conhecidas, ler um jornal, conversar com os balconistas... Nestes casos, o café é um mero pretexto para a socialização.
No centro, posso citar com certeza vários pontos em que isso é perceptível.
Andando pelas ruas, vou notando o movimento das pessoas... As bancas de jornal, já abertas bem cedinho, sempre param os curiosos com as notícias do dia. A leitura é bem superficial, somente nas manchetes e nos curtos fragmentos que algumas matérias deixam. A relação entre os que param nas bancas e efetivamente compram um jornal é quase insignificante. Nos sinais, e, provavelmente, de olho neste perfil de leitores de manchetes ou de temas bem superficiais, jornaleiros distribuem jornais gratuitamente.
Acredito que em cidades maiores, haja até mais grupos atuando nesta linha, em que o faturamento dos grupos de comunicação está associado ao marketing feito nestes periódicos.
No trânsito, a correria e caos de sempre, com os motoboys sempre achando que a pressa é só deles, e a prioridade também. Colocam em risco a vida de todo mundo, sem nenhuma prudência.
Em pontos estratégicos das esquinas, sempre um amarelinho, à espera iminente de um vacilo dos condutores para aplicar suas multas, de caráter único e exclusivamente educacional... Pelo menos é o que dizem.
Na porta de empresas de recrutamento, um drama coletivo cada vez maior, filas e filas em busca de nova oportunidade. No CPAT então...
Na catedral, um movimento contínuo de entrada de pessoas... Muitas vão buscar forças do alto para a batalha diária da vida... outros, num ritual religioso e de fé vão para a missa matinal, outros para o terço e outros, simplesmente para adorar o Santíssimo e/ou venerar Nossa Senhora da Conceição.
Na 13 de maio, gente que já levantou bem mais cedo que eu, com seu comércio itinerante e livre na rua. A maioria, peruanos e bolivianos... um tanto que receosos para uma conversa mais detalhada, devido a suposta ilegalidade no país. O tempo de permanência destes ambulantes vai ao limite do permitido pela SETEC... Até os últimos instantes permitidos fica a esperança de vender para os apressados que passam pela rua.
De tudo isso, posso dizer, a vida começa bem corrida na cidade. E na maior parte dos casos, a pressa é perceptível.
É o medo de perder algo que está sendo segurado por um fio, é o eficiente transporte que mais uma vez atrasou e este atraso deva ser compensado com passos mais largos...
Com tanta pressa, não tem nem como ter espaço pra reflexão, é um ritmo frenético imposto pela vida, que simplesmente diz às pessoas bem cedo: "Levanta e vai".
As pessoas vão, e sabe-se lá como vão.
Na conversa dos cafés, um tema genérico são os problemas cada vez maiores. É um pessimismo generalizado e crescente. A sensação negativa é facilmente notada, mas algo curioso vem de tudo isso.
E daí vem uma pergunta? Se tá tão difícil e adverso assim, por que as pessoas, na sua maioria, não param? Como este negativismo não paralisa?
Creio que o motivo seja uma esperança coletiva, muito supostamente até mesmo inconsciente, que muitas vezes não é nem mesmo verbalizada ou sentida pelas pessoas, mas com força suficiente para nos empurrar pra frente. Num momento em que já nem sequer temos noção se há energia e força. Num momento de total fadiga mental.
Uma energia mínima que nos faz lutar por mais um dia. 

Um impulso maior, da vida, capaz de não nos deixar que fiquemos parados, mesmo que as condições externas sejam adversas, hostis...
Cada um, dentro de suas experiências de vida, pode manifestar esse empurrão de várias formas.
É o impulso de Deus que nos move, que nos faz ter fé que algo de melhor possa acontecer, mesmo que nos arredores não haja nada dando sinais disso.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Sentimentos positivos

Ter fé é algo necessário e extremamente imprescindível na nossa vida.
Fundamentalmente, ela não requer que tenhamos elementos favoráveis para que ela se torne realidade.
Imagino uma vida sem este ingrediente: um vazio completo, um mar de descrenças. 
Encontrar-se num estágio como esse na vida... Creio que já seja estar morto, mesmo com o sangue correndo pelas veias. Algo forte e determinante o suficiente para jogar uma pessoa num completo estágio de letargia. 
Na literatura, esta corrente de céticos tem se mostrado presente ao longo de, praticamente, todos os escritos dos quais se têm registro.
Iniciando-se pela Bíblia, temos o livro das Lamentações, ainda no Antigo Testamento, que já abordava esta temática. 
Os Salmos, em alguns momentos, também tratam isso, posto que descrevam também sentimentos tipicamente humanos.
No período do Romantismo, segunda fase, temos o Mal do Século.
Já no final do século XIX e início do século XX, temos os niilistas. Em paralelo e, de certa forma concomitante, haviam os positivistas. Acreditavam que tudo deveria ser provado pela ciência, algo extremamente oposto ao conceito de fé. 
Bom... Estes são somente alguns exemplos. 
O lirismo, eivado da descrença, assume manifestações das mais distintas formas.
Desapegar-se destes pensamentos negativos... 
É o que todo indivíduo deveria procurar, a todo custo, por mais que o mundo possa tentar, intermitentemente, provar-nos o contrário. 
É preciso acreditar... 
Isso não significa tomar o caminho da ingenuidade.
Devemos sonhar...
Mergulhar na magia de que somos sim capazes de conseguir algo, mesmo que nossa condição de humanos nos limite em alguns aspectos.
Este sentimento otimista deve estar presente na nossa mente. 
Ele é o combustível que sustenta-nos constantemente de energia, dando-nos suporte para enfrentar as adversidades e perdas inevitáveis ao longo da caminhada.
Nutrir o coração de esperanças...
Forma de tornar-nos vivos e confiantes de que algo pode ser sim possível, alcançável.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Livros de Autoajuda

Compreender, explicar e viver a vida em plenitude: algo não muito fácil.
Inebriar-se no desconhecido do futuro, onde existam mistérios e incertezas quanto ao simples minuto seguinte que viveremos. 
Isso pode se tornar algo complicado para quem não tem fé.
Para muitos, a busca incansável e disciplinada por objetivos das mais diversas formas é sempre a garantia plena e convicta de sucesso. E é nesse segmento de mercado que o mundo editorial atua, o nicho de Autoajuda
De olho em quem quer comprar a ideia do sucesso, inúmeros livros surgem a todo momento. 
Incontáveis publicações vêm com receita completa. Uma verdadeira panaceia que vai resolver todos os problemas e que trará também prosperidade. 
Muitos se tornam famosos e rentáveis best-sellers.
Livros que possuem um conteúdo bem articulado de ideias e com um ritual determinístico que, se seguido fielmente, trará o resultado que cada pessoa almeja, sonha e/ou aspira para sua vida.Isso é algo muito bem trabalhado e explorado pelo mercado editorial.  Entretanto, toda esta ideologia e corrente de pensamento não pode comprovar o êxito, efetivamente, na vida dos que estão buscando este sucesso a todo preço. 
Se a meta não foi alcançada já se tem até a justificativa (dos escritores) de que o esforço não foi obtido porque ainda não houve uma dedicação tão exclusiva e disciplinada que se esperava de certa situação.
A temática destes livros omite de forma clara muitos fatores que estão, intrinsecamente, ligados a nossa condição humana. 
Assumir que, por sermos humanos, estamos a todo o momento sujeito a erros, falhas, imperfeições é algo que não é abordado jamais nestes livros. 
Dizer que somos limitados perante Deus jamais pode ser mencionado. 
Falar sobre isso compromete a venda de produtos neste segmento, principalmente os que são mais céticos por natureza. E a ideia do mercado editorial não é essa. É simplesmente, vender.
Numa abordagem ainda mais a fundo, na vida mesmo dos que escrevem os livros fica a ideia... 
Será que esta metodologia de vitória está presente na vida dos mesmos?  
Conseguiriam estes autores converter toda esta linha de pensamento em algo concreto nas suas vidas pessoais, famílias, etc. ? 
Acho que não.
A questão é que a teoria é muito mais fácil que a prática.
A luta pela vida deve ser feita a todo o momento. 
Vida é trabalho, esforço, dedicação, alegrias, sofrimentos, derrotas, decepções ... 
Acreditar que podemos alcançar algo é necessário sempre. 
E é o que nos motiva a sempre dar um passo adiante rumo ao desconhecido. 
Porém, só não se pode esquecer que a perfeição plena é algo somente pertencente a Deus. 
Não somos deuses. 
Toda garra e engajamento que dispusermos sobre nossos sonhos e metas, e estes sim são imprescindíveis para o êxito, têm um limite até aonde podemos ir. 
Dali em diante somente Deus pode decidir.
Precisamos, pois, de Deus, para realizarmos o que queremos nesta vida. 
Somente depois de fazermos a nossa parte, indo nos limites de nossas ações com todo nosso esforço, é que ele pode sim decidir se somos merecedores. 
A última ação é Dele.

Campinas - Mercado Municipal

Este sim tem história para contar.
Projetado por Ramos de Azevedo, arquiteto da cidade e que depois se destacou com maior grandiosidade em São Paulo, o Mercado Municipal é um interessante local para conhecer um pouco mais da história de Campinas. 
É uma enciclopédia viva.
O mercado possui uma diversidade de comércios e segmentos. Uma imensa quantidade de produtos bem variados num só local. 
De uma forma geral, pode se encontrar praticamente de tudo considerado popular.
Além da sua estrutura física interna com seus boxes divididos, a área externa também se integra ao mesmo de forma harmônica. Isso pode ser observado externamente nas bancas de verduras, temperos, flores, frutas, etc. Alguns destes comércios mantêm uma forma de vender seus produtos assim como há décadas passadas. 
Em algumas situações muito específicas, é como se a forma de comercializar, bem como os produtos vendidos, estivessem parados no tempo. 
E põe tempo nisso!
No segmento de tabacaria, destaque especial para a banca que vende fumo de corda: um hábito que atravessou gerações, e o canivete antigo também. Ambos faziam parte de um ritual antigo em que meu avô preparava seu cigarro de palha em paralelo com as conversar e casos que ia contando da vida. Lá também se acha o rapé, produto cada vez mais raro. Tudo isso faz lembrar bastante a época em que o ritmo das coisas era mais devagar, sem a pressa de hoje.
No comércio de especiarias, é possível encontrar temperos para boa parte das receitas gastronômicas de hoje. É um local excelente para pessoal que busca ingredientes um tanto que raros para o preparo de pratos, doces, carnes...
Para quem busca a cura de doenças por meio da fitoterapia, pode ir numa banca que vende uma vasta lista de plantas medicinais.  Na mesma banca, pode ser obtida gratuitamente uma lista de indicações entre os principais problemas de saúde das pessoas correlacionados com as plantas que seriam recomendadas para o respectivo tratamento.
Aos que gostam de pescaria, há entre 2 ou 3 bancas em que se podem encontrar produtos relacionados com a pesca.
As pessoas que gostam de usar chapéu têm disponíveis uma loja em que há uma variedade enorme de produtos. Em Campinas, lembro-me somente de outras duas ou três lojas que vendiam produtos similares, mas isso não é no mercado.
Diferentes tipos de pimenta têm endereço numa banca, que praticamente vende somente este tipo de produto. Neste caso, praticamente se acham as mais conhecidas e famosas do mundo, como Habanero, Jalapeña, Bhut Jolokia,  além é claro das nacionais: Dedo de Moça, Murupi, Malagueta, Biquinho, Cambuci...
Bancas com produtos japoneses e coreanos estão presentes também, cada uma delas representando seus típicos e respectivos produtos.
No mercado de carnes, encontra-se praticamente de tudo: peixes, aves,  suínos, bovinos etc.
Além dos já citados, há muitíssimos outros que aumentariam, e muito, a lista de opções que o mercado oferece: sucos, laticínios, queijos, doces, pamonhas, salgados...
Mais que citar as opções que o mercado oferece, o interessante mesmo é ir conhecê-lo. Isso para quem ainda não foi. 
E aos que já foram um dia, recomendo que voltem para uma nova visita. 
Acho que vale a pena.
É mais uma oportunidade para os que queiram conhecer melhor a cidade de Campinas.

Falando da Vida

2015: ano que já começou, e pequena parte deste já foi consumida. Carnaval já ficou para trás. A vida não pára. O relógio pode até parar, visto que tem bateria, mas a vida não.
No horizonte deste ano, um cenário de incertezas por diversas formas: problemas de falta d’água, inflação aumentando, desemprego crescente, dólar e gasolina nas alturas ...
O que se percebe nas pessoas é uma notável apreensão quanto ao que nos reserva este ano. A mídia fala disso por meio de seus mais distintos canais de comunicação. A descrença no governo, na economia, na segurança pública ... Enfim, o pessimismo está muito grande.
E diante disso muitos questionam. O que será deste ano?
Problemas para todo lado!
É preciso entender que ele é parte de nossa vida. Seja ontem, seja hoje, eles sempre existiram. Ele é um personagem coadjuvante na vida da maioria das pessoas, e dependendo de uma situação mais crítica, ele pode vir a se tornar o protagonista. Cabe a nós não deixarmos que o mesmo se torne o personagem principal de nossa vida, lutando contra isso a todo momento.
Se compararmos as crises pelas quais passaram a humanidade há 20, 30, 50 anos ... Haverá, naturalmente, mudanças e aspectos distintos relacionados a ele, como tecnologia, hábitos e culturas específicos de cada geração. Porém, agora ou antes, a essência não mudou: dor, sofrimento, decepção... De alguma forma estes componentes estavam presentes nas vidas das pessoas.
Problemas mudam somente de lugar, de tempo, de circunstância, de endereço.
Agora sob o ponto de vista otimista, creio que eles existam para que cresçamos como pessoas.
São nos problemas que estão as grandes oportunidades. Foi à partir deles que as melhorias e avanços da humanidade vieram. Se tudo fosse perfeito desde o início não haveria nenhum fator que motivasse a mudança.
A condição humana para evoluirmos como pessoas está, inevitavelmente, ligada a nossa forma de encarar os problemas.
A complexidade de alguns deles exige até mesmo mais cautela e análise prévia para lidarmos com os mesmos, antes que tomemos as medidas para saná-los.
Mesmo que não consigamos resolver todos, devemos estar sempre aptos e dispostos a resolvê-los.
Vida é luta!
Dessa forma, mais que tentar entender o que vem neste ano de fatos determinantes na nossa vida, é preciso tentar entender algo maior, que é  a vida, com seus mistérios, entrelinhas, desafios, oportunidades etc...
Entender como lidar com cada problema, e como ser tolerante com as coisas que, infelizmente, não conseguimos mudar. Desistir jamais. Lutar sempre.

Paternidade

Forma surpreendente de manifestação de amor.
A cada instante, um ato comovente e emocionante da criança.
Num universo de pureza e sinceridade delas, presenciamos a todo o momento, gestos de ternura e carinho.
O fato de não ter se envolvido ainda plenamente com o mundo, com suas relações sociais e todas as suas armadilhas, dissimulações, coloca as mesmas num patamar superior ao nosso. É algo espiritual e divino.
Há, sem dúvida, um universo perfeitamente harmônico entre elas e Deus.
Esta percepção é visível nos pequenos gestos que vemos, ao conviver diariamente com elas.
Esta energia é irradiante, e nos influencia positivamente.
Na condição de pai, sentimos a necessidade de ser melhores...
A responsabilidade de dar exemplos bons com nossos atos faz-nos crescer espiritualmente também.
Creio que somente com um comportamento condizente ao que ensinamos é que a educação dada a elas seja mais efetiva.
Isso não é nada fácil.
Algo bem árduo de se alcançar, e que torna mais complexo à medida que estivermos mais envolvidos com as coisas do mundo. Mundo este que é competitivo, interesseiro, traiçoeiro.
A paternidade tem algo mágico, que nos induz a tentar resgatar no coração este sentimento que, na maioria das pessoas, já se perdeu.
Em outros, essa sensação pode vir de outras formas, podendo ser algo que nem mesmo se pensou ou verbalizou, justamente por não se ter vivido este contexto.
Ainda em outras distintas circunstâncias, essa sensação pode surgir na vida de outrem que, dadas suas experiências de vida, jamais se imaginou que isso pudesse existir.
Inebriar-se no universo da paternidade e usufruir de todas as possibilidades divinas que o contexto e momento nos oferecem: algo sem medida.
Há muitas sensações intrínsecas que somente compreendemos quando também somos pais.
O pensamento nos leva a evadir no tempo, e voltar no universo e cenário de nossa infância, em momentos da imaginação que ficaram vagos, remotos e escondidos na infância, a ponto de imaginarmos o amor que nos foi dado por nossos pais, com sua disponibilidade infinita de dedicação para suportar, no silêncio, inúmeras noites de sono mal dormidas, privações das mais distintas formas...

sexta-feira, 13 de março de 2015

Campinas - Bairro Ponte Preta

    Um dos bairros mais antigos de Campinas, que vem se modernizando nos últimos anos com a expansão imobiliária.
    O bairro que antes era tranquilo, agora já enfrenta (em alguns momentos) um ligeiro congestionamento nos horários em que as pessoas vão e retornam do trabalho. Algo perceptível na Ângelo Simões, Saudade e Abolição. Mesmo assim, a tranquilidade pode ainda ser notada em ruas como Afonso Pena, Henrique Dias...
    Com seus moradores mais antigos é possível conhecer mais detalhes, contos e histórias do bairro. Pessoas que veem hoje as mudanças naturais que o bairro vem passando, m as que não trocariam jamais de endereço.
    Há algumas décadas o bondinho era o principal veículo que unia o centro ao Cemitério da Saudade. Junto à entrada deste, podemos ver uma homenagem de Campinas aos soldados que entregaram suas vidas na Revolução de 32. A revolução é um marco para o Estado, tanto que isto é sempre oficialmente lembrada no calendário civil do Estado. Trata-se do feriado de 09 de julho. Uma homenagem aos combatentes.
    Em conversas com antigos residentes da Rua Abolição ... muitas lembranças e casos. Contos de jovens que, durante os vários ciclos e fases da ditadura militar, eram clinicamente diagnosticados como loucos e levados para o Sanatório Santa Isabel, simplesmente por serem considerados subversivos ao regime até então vigente. O prédio foi desativado durante um bom tempo. Depois foi albergue para moradores de rua. Hoje faz parte do condomínio residencial Pateo Abolição. Passou por uma considerável reforma, tendo sua fachada preservada. Agora o mesmo se encontra incorporado ao condomínio e é, naturalmente, privado. 
    Ainda na Abolição, muita conversa era trocada na Padaria Santo Antônio, na barbearia do Seu Zé e no Bar Canindé. Neste reduto, de praxe, podia-se fazer uma fezinha com o jogo do bicho. Hoje, isso tudo acabou. E só ficou nas lembranças de quem conta.
    Para a comodidade dos comerciantes locais, era possível fazer a contabilidade ali mesmo, sem a necessidade de ir ao centro, o que, naturalmente, tinha outras opções. Isso podia ser feito no Escritório Contábil São Manoel.
    Mudando de rua, indo para a Saudade, vemos a religiosidade presente numa das maiores Igrejas de Campinas, a de Santo Antônio. Sempre cheia aos domingos, a mesma tem um movimento atípico de fiéis e visitantes uma vez por ano, o que é bem além de sua rotina e do calendário litúrgico convencional. Isso ocorre em junho, na data do Padroeiro. É um número expressivo de devotos que visitam a mesma com vários propósitos de alcançar graças, em especial a do casamento. Outro ponto nesta rua e que não existe mais é o Instituto Adolfo Lutz, produtor de vacinas. Neste local temos hoje o moderno prédio da SANASA.
    Duas escolas de mesmo nome havia na Saudade: o Colégio Dom Barreto. O particular está em pleno funcionamento de suas atividades. O estadual não existe mais no local.
    Durante um bom tempo, e especialmente aos domingos, era comum se comprar marmitas das irmãs. Naquela época, as pessoas levavam marmitas de alumínio de casa, e elas voltavam cheias de comida para o almoço dominical, com um tempero especial que valia a pena.
    Na parte do misticismo, havia uma benzedeira muito famosa na região, que morava próxima à ponte em que começa a Avenida Ângelo Simões. Dona Dioma, como era conhecida, tinha poderes adicionais com suas orações. Era uma benzedeira que atraía gente de todas as partes da cidade e de outros municípios. Curava muitos males que a medicina nem sequer prescrevia.
    Quanto à boemia, isso não mudou. Alguns bares até fecharam e outros abriram, mas esta essência do bairro se manteve, e é uma marca registrada. Um bar que é muito conhecido tanto pelos nostálgicos quanto saudosistas é o Canindé, que hoje só resta na memória. Por outro lado, existem os tradicionais que continuam a todo vapor, como Adega Santo Antônio (de influência portuguesa, com bandeira de Portugal e imagem de Nossa Senhora de Fátima – para quem não souber: a padroeira dos lusitanos); o Vadico (reaberto e restaurado pelo filho do mesmo recentemente); o Soares e outros mais... A lista aqui é longa e considerável.
    Uma curiosidade aos leitores que não conhecem Campinas... A Ponte Preta - que é o maior e mais popular clube de futebol de Campinas - não fica no bairro que leva o mesmo nome. O clube fica no Jardim Proença.
    Conhecer o bairro da Ponte Preta é algo que vale a pena. É um bairro cheio de peculiaridades, com presença significativa na história de Campinas. O bairro tem incontáveis pontos positivos. A ideia aqui é somente exaltar a região, que tem vastas qualidades e merece uma visita detalhada e com tempo. Sugiro que os interessados em saber mais sobre a cidade façam o mesmo.

Campinas - Rua Barão de Jaguara

Falar da Rua Barão de Jaguara é contar a história e essência de Campinas. 
É umas principais e mais antigas ruas da cidade.
Há dois séculos, no período da monarquia, ela já teve outros dois nomes. 
Já se chamou Rua de Cima e também Rua da Direita. 
Já no início da República, exatamente no ano que começou a mesma, ela passou a ser a Rua Barão de Jaguara e se manteve até hoje.
A sua localização no centro da cidade foi algo que a fez estar envolvida com os eventos principais que transcorreram na cidade. 
Em outras palavras, era onde as coisas mais importantes aconteciam passado.
Ela já foi sede da Câmara Municipal, e foi o primeiro endereço campineiro a receber energia elétrica.
Para as pessoas que iam ao centro e chegavam das regiões de Jundiaí, São Paulo, Sorocaba... Passar pela mesma era uma rota natural. 
Sempre muito movimentada, seja por carros de boi, cavalos, simples e/ou suntuosas charretes no período mais antigo; seja por automóveis ao longo da história, desde a era fordista até os dias atuais.
Descendo a rua à partir do seu início, temos a Praça José Rodrigues, onde começa também a Rua Proença, que vai para outro sentido da cidade.
Bem ainda no começo, temos o Colégio Ave Maria, de educação religiosa e católica. Na sua igreja, à parte do colégio, as pessoas podem visualizar uma imagem bem bonita e protetora de Nossa Senhora das Graças, que fica voltada para a rua. Agregado ao colégio há ainda irmãs de caridade vivendo no mesmo local. Elas são responsáveis pelas atividades educacionais, religiosas e sociais.
Um pouco mais adiante, temos a Casa de Santa Ana. Este prédio foi criado pela Igreja na época do Vargas, década de 30, com a ideia de ser um abrigo para meninas carentes. Naquela época, o prédio era conhecido como Associação do Asilo Santa Ana, e ensinava diversos trabalhos domésticos às suas alunas, como culinária, artesanato, corte e costura... Terminados os cursos, havia em encaminhamento destas meninas para trabalharem em casas de família da cidade, escolas, hospitais... Ao longo de sua história, aconteceram algumas mudanças, no qual foi dado ênfase também a outros grupos específicos de pessoas necessitadas e carentes, mas o local sempre manteve sua vocação, focada na caridade, integração social e auxílio aos mais necessitados.
Descendo um pouco mais a rua, chegamos ao primeiro largo a o qual esta rua faz parte: Largo do Pará. Em conversas com as pessoas mais antigas, consta que neste local nascia o Rio Tanquinho, e que até o final da década de 20, o nome desta praça fazia jus ao nome do seu rio. Era o Largo do Tanquinho. Este rio ia descendo nesta rua, passando pela Dr. Quirino (Rua do meio), Luzitana (Rua de Baixo), Avenida Anchieta (...), para depois, muito mais adiante, desaguar no Rio Anhumas. Hoje isso não é percebido pelos moradores, pois ele foi coberto e canalizado em parte do seu curso inicial.
Seguindo a rua após o cruzamento com a Avenida Moraes Sales, há um local muito interessante para se conhecer: Galeria Barão Velha. Neste local, recentemente reformado, podem ser vistos os primeiros conceitos e tendências comerciais de agrupamento de lojas na cidade. Atualmente, numa escala bem maior, conhecemos isso como shopping, mall... Os mais saudosistas, certamente, têm incontáveis histórias a respeito deste local, pois era um ponto de encontro de muita gente. No local, já existiu até um cinema, hoje desativado. Trata-se do Cine Paradiso. Havia também um atrativo a mais neste local, que era a orquestra de moças. As mesmas eram regidas por uma violinista francesa, que segundo consta, era de muito renome e famosa, o que aumentava ainda mais o movimento. Esta admiração por algumas das moças da orquestra já rendeu até casamento. Hoje, este local está em pleno funcionamento, com lojas de vários segmentos.
Na esquina com a Ferreira Penteado, havia a Farmácia Merz, com fundação datada de 1910. Algo interessante na sua fachada é uma serpente, que é o símbolo muito conhecido aos profissionais da área da Saúde. Segundo fontes levantadas, seria um Esculápio, com figuras humanas e leões.
Seguindo a ordem natural de descida da rua, temos o Mercado Campineiro. Este merece uma crônica exclusiva, para que se possa detalhar uma infinidade de comércios interessantes que estão no mesmo. É um excelente local para se frequentar.
Muito próximo ao mercado, temos a Galeria Trabulsi, também ligada com este conceito de agrupamento de lojas diversas. Lembro que o elevador da mesma foi, até muito recentemente, no estilo à moda antiga, no qual a porta ainda era de grades sanfonadas, ao invés da porta automática. Tinha ainda um ascensorista - algo cada vez mais raro - para conduzir as pessoas aos diversos andares deste prédio. Nesta Galeria há uma passagem direta para a rua Dr.Quirino. Esta via tem muita circulação de pessoas na hora do almoço.
Passando a Rua Conceição, havia a Continental. Esta era conhecida também como Caderneta de Poupança. Nesta época,podia-se, tranquilamente, sair deste local com dinheiro no bolso. Neste trecho da rua há hoje algumas livrarias no entorno, que recebem bastantes leitores de livros que queiram comprar, presentear ou simplesmente folhear novos livros para ver as tendências e lançamentos do mercado literário.
Na esquina com a César Bierrembach, temos o primeiro arranha céu da cidade, com sete andares. Hoje funciona no local um Hotel, que foi recentemente reformado e está em plena atividade, bem como um cartório de registro civil.
Chegamos ao Largo do Rosário. É aí que os protestos, passeatas, comícios, apresentações populares e outros foram e são realizados. É simplesmente o coração da cidade.
Nesta região, começa a crescer o reduto da boemia, que passou por várias modalidades e segmentos até; os dias atuais, com uma lista de bares, cafés e restaurantes que existiram e vigoraram durante um bom tempo, e em períodos/décadas bem distintos. Uns já se foram, outros ainda funcionam e novos virão. Aliás, assim como a vida, à noite e a bohemia têm os seus ciclos.
Aos pontos extintos, destaque para o Bar Cristofani. Este, em especial, é muito mencionado nas crônicas de Campinas. Na linha dos extintos, havia também o Taco de Ouro, reduto dos sinuqueiros e jogadores que viravam a noite com suas apostas, seus vícios. Nos casos mais extremos, consta que, mediante as apostas, muitos voltavam ricos para casa, assim como outros perdiam tudo e entregam até a família. Os relatos deste local são mais recentes, à partir do final da década de 50. Ainda extinto e contemporâneo a este, havia o Café do Povo, ponto de muita conversa regada a café, numa época intermediária entre o final da era Vargas e o período do governo Figueiredo.
Para os pontos ainda em pleno funcionamento, destaque nesta região para o Restaurante Éden Bar com o famoso Bife à Parmegiana. Uma boa pedida no almoço. Além disso, temos o famoso Café Regina, que leva este nome devido ao prédio no qual o mesmo está localizado. Este funciona desde 1952, conforme sua própria fachada anuncia.
Ele passou por várias reformas ao longo da história, e se moderniza a cada uma delas. É o mais popular da cidade.
Este ponto do café, juntamente com a Padaria Orly, que fica em frente ao mesmo, já foram decisórios nos rumos políticos da cidade ao longo de várias gerações, uma vez que eram os locais de encontros dos vários políticos influentes da cidade. Regado a uma xícara de café coado na hora, muitas articulações políticas eram feitas e discutidas neste circuito. Além disso, outros grupos, não somente de políticos iam.
Numa época em que não havia internet e celular, esta região era um local em que grupos de áreas profissionais distintas se encontravam para discutir assuntos diversos como cultura, filosofia, história... E hoje, mesmo com tanta tecnologia se mantém este ritual, com algumas particularidades. É o serviço de encontro natural que os cafés proporcionam em qualquer cidade. Porém, devido uma série de outros fatores, dentre eles destaque especial para a concorrência com novos cafés e padarias da cidade, este movimento de pessoas é feito também em outros pontos da cidade. Isso seria uma diferença para os tempos passados, em que as opções da cidade se concentravam quase que especificamente neste meio.
Chegamos ao Largo do Carmo, que leva este nome em função da Igreja de Nossa Senhora do Carmo que fica também no local. É uma praça que já passou por praticamente todos os ciclos importantes da história da cidade. Funciona nela uma feira de artesanatos e variedades durante as quintas e sextas feiras. Nela está também o Jóquei Clube, onde se pode apostar em corridas de cavalos. Ir neste local é voltar no tempo.
Terminando o percurso, chegamos ao final, na esquina com a Barreto Leme.
A rua acaba aqui, mas a história não. Ela é contínua e viva.
Ao longo deste texto, alguns pontos foram citados, outros esquecidos, outros ainda omitidos. Novos pontos surgirão, outros serão fechados, o que é algo natural em qualquer cidade. Mas apesar de todas as mudanças e de muito tempo que já se passou , desde o seu primeiro nome (Rua de Cima) até os dias atuais, acredito que ela ainda represente muito da essência desta cidade. Preservar os pontos que restam desta rua é algo importante. É conservar uma enciclopédia viva de Campinas.

Saudades

  Tempo que vai, que se arrasta, e saudade que sempre vem. Canções, versos, frases repetidas, gestos, manias, afinidades… No pensament...