quinta-feira, 7 de abril de 2016

Aurora


Nos arredores, um ambiente favorável à reflexão.
Como numa orquestra, os instrumentos em sintonia e em locais adequados cadenciam harmonia.
Um jogo sinestésico de detalhes auxiliam à criatividade.
Odores de cafeína exalam no ambiente, consoante ao café moído e passado na hora.
No fogão à lenha, os estalos da madeira que vai se queimando.
O calor vindo da cozinha anuncia que o pão de queijo está pronto: acabou de sair no forno.
O paladar faz um convite à nobre degustação.
A noite começa a dar sinais de que já está começando partir.
O galo já cantou na madrugada.
Da varanda, pequenos sinais da serração encobrindo o longo horizonte.
No jardim, a grama mostra sinais do orvalho.
A insônia permitiu que o meu raiar do dia fosse mais temprano.
Silêncio e paz dominam o ambiente.
A aurora chegando: mais um dia, com lutas e muito trabalho sob a luz do sol.
Nos mínimos detalhes e na simplicidade, a manifestação e presença do Senhor.
Pelos caminhos a percorrer, a certeza da companhia do Supremo.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Percepções

Depois de um tempo, após acertos e enganos, um pouco de aprendizado se tira da vida.
É um mínimo de conhecimento, que até pode ser utilizado em situações similares, caso venham a acontecer.
Apesar disso, e independentemente dos fatos, algumas lições aprendidas conseguem nos colocar mais aptos a novos desafios.
Mesmo assim, a experiência não te torna invulnerável de fatos novos, sobre os quais estamos fadados, em alguns casos, a quedas consideráveis.
Aprende-se que, a calma e concentração devem ser ingredientes imprescindíveis para o banquete da vida.
A velocidade acelerada nem sempre é a melhor alternativa.
O caminho pode ser mais contemplativo se estivermos desacelerados.
Com o fator serenidade ao nosso lado, tornamo-nos mais suscetíveis a analisar e compreender melhor os problemas e desafios que o viver nos reserva ou outros que, mesmo inconscientemente, criamos para nós.
Quantas vezes no passado, a precipitação e ansiedade foram determinantes para colocar mais pedras no pedregoso caminho que percorremos?
Quantos erros poderiam ser evitados se a tranquilidade estivesse presente?
Caminhamos muitos trechos na vida, de nuances e características bem distintas uns dos outros.
Estratégias da travessia devem ser analisadas conforme o perfil e particularidades de cada trecho e terreno...
E esta capacidade de análise, cheia de sutilezas e armadilhas, não é com pressa, nervosismo, tempestividade e agitação que se vai perceber.

sábado, 2 de abril de 2016

Estrutura Social

Nossa história de formação está diretamente ligada aos conceitos de nobreza, aristocracia.
Tivemos inclusive um rei vivendo em terras tupiniquins.
Nas ruas, praças, avenidas e logradouros afins...
Nomes de famílias influentes, que em determinado momento tiverem algum tipo de hegemonia política, financeira...
Em São Luís, estado do Maranhão, isso chega ao extremo do absurdo com a oligarquia.
Salvo raríssimos e excepcionais casos, vemos os principais pontos públicos nomeados por gente mais simples ou de menor condição social.
Aos terceiros, ruas que poucos conheçam: algo irrelevante.
O critério maior para a publicação destes nomes é puramente vinculado à influência política, aliás é o próprio legislativo que aprova isso.
Por várias maneiras, e nos mais distintos focos de análise, observa-se que não há democracia se seguirmos critérios rígidos de observação.
A liberdade que nos é dada, sobre a qual se fundamenta a igualdade de direitos, reside sobre questões nas quais teríamos poderes. Porém estes não mudariam as estruturas de poder que hoje existem.
Ao se receber parte(ínfima) dos direitos, transcende-se a ideia que temos o todo.
É um jogo sutil de ideias que poucos percebem.
O Carnaval é um bom exemplo disso: sinônimo de liberdade. Aliás, a arbitrariedade com o que cada um faz da sua vida pouco importa para os detentores do poder.
No mundo político, o conceito do foro privilegiado quebra completamente a ideia mínima de direitos iguais.
Diante destas observações, acredito que a melhor tradução para fundamentar nossa verdadeira estrutura política e social seja a de uma sociedade por castas, mesmo que, teoricamente, os livros de história e geografia continuem afirmando que aqui exista uma democracia de fato.

Caminho

Momentos de enorme dependência de terceiros.
Espera por ações e fatores externos que fogem da nossa mínima capacidade de iniciativa.
Circunstâncias da vida em que, humanamente, não há o que fazer.
No cinema, a metáfora poderia ter o mesmo nome de um filme com Tom Hanks: ‘A espera de um milagre’. Somente se mudaria, naturalmente, o roteiro.
Muitos vivem isso: situação inevitável de inércia.
O que é problema para você, e muitas vezes não somente te tira o sono, mas também te consome ao longo do dia, pode ser extremamente sem sentido aos outros.
Nas pessoas coadjuvantes desta história, uma completa indiferença e falta de comprometimento com seu drama ou suas necessidades.
Por mais que se fale ou se verbalize sobre isso com tais pessoas, o esforço é em vão.
Detalhe: somos o protagonista desta história.
Buscando-se uma referência à mitologia grega, seria algo próximo ao Mito de Sísifo.
No tabuleiro de xadrez da vida, a inviabilidade de dar um lance.
É estar com sede defronte ao mar.
E o que fazer então?
Ações externas não existem, mas internas sim: momento de aquietar o coração.
Hora da entrega completa nas mãos do Senhor Supremo.

Outono

Ao olhar pela janela, o horizonte anuncia a chegada da noite.
No ciclo da natureza, algumas árvores já traduzem sinais do tempo.
A queda das folhas anuncia que o outono chegou.
Coadjuvante nesta história, o vento começa a acelerar a etapa da queda de folhas.
Período de renovação da vida.
Caducifólias manifestam, explicitamente, um momento de recomeço.
Nos parques, tapetes naturais de folhas secas.
Chuvas, outrora torrenciais, desparecem ,convertendo-se em dias secos e amenos.
O outono chegou.
Mais um dia de lutas se foi.
Entardeceu.
Os sons do dia se convertem no silêncio da noite.
Sinos da catedral ecoam e avisam sobre o começo da madrugada.
O ruído dos ventos orquestra a sinfonia da vida.
A brisa invade a sala sem bater, trazendo o frio consigo.
Na chegada, o vinho sobre a mesa começa o diálogo com a vida.
O sereno sugere que se feche a janela.
Em parte, cerra-se a percepção dos olhos na sala.
Com a penumbra, novos horizontes agora se abrem.
Mudam-se seus focos.
O olhar fica introspectivo.
A visão evade o espaço e o tempo.
O Malbec vira o combustível.
Desembarca-se no mundo das ideias e pensamentos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Campinas - Bondinhos

Traço marcante na história Campinas.
A cidade teve, por um bom e considerável tempo, este como o principal meio de transporte de massa, sobretudo para fazer o deslocamento entre os seus principais bairros.
Suas ramificações permitiam aos moradores irem por vários pontos da cidade.
Em uma de suas linhas (supostamente a mais longa), poderia se ir, por exemplo, até o distante bairro de Joaquim Egídio.
Detalhe: se muitos acham esta região distante, imagine ainda mais há quase meio século, deslocando-se até lá a uma velocidade bem menor.
Neste ponto final, existe hoje um prédio antigo restaurado, levando aos usuários desta linha no passado a um caminho maginário aos tempos idos de outrora, eivado de lembranças  peculiares e individuais das mais variadas conotações e sentimentos.
Carros nesta época? 
Poucos... Isso era privilégio de famílias mais nobres. Luxo da aristocracia campineira (além de alguns emergentes burgueses).
Trânsito? Não era algo a se preocupar...Enfim, nada que se compare com hoje: congestionamento, caos...
Aos eventuais, alternativos e factíveis concorrentes do sistema de transportes, poderia mencionar as charretes, os cavalos ... Quiçá algumas motos, dependendo da década de observação.
Em 68, os bondinhos encerraram suas operações na cidade. Supostamente, já sendo influenciado pelo advento enorme de caminhões e ônibus que naquele momento já estavam sendo fabricados há quase dez anos, iniciados anteriormente pela era JK.
Extinguir os bondinhos e abrir-se ao novo, dava às cidades um tom de vanguarda.
A cultura pertinente da época era simplesmente abraçar o novo, extinguindo (às vezes até drasticamente em alguns casos) o passado.
A extinção apagou os bondes da visão, mas não da memória.
Aos moradores mais antigos, saudosismo de uns, nostalgia de outros.
Histórias dos antigos não faltam.
Cada um, por suas experiências e fatos vividos tem o que relatar.
Hoje, ainda há um resquício do passado.
No Taquaral, ainda é possível dar voltas neste veículo coletivo das antigas nos fins de semana.
Trata-se de um pequeno trecho turístico que, normalmente, tem longas filas de entusiastas.
Publico interessado? Todas as faixas etárias, desde idosos até pais que querem mostrar a seus filhos o bondinho pela primeira vez.
Pensar num passado, na era dos bondes, com todos os seus moradores vestidos em trajes típicos e condizentes com a época, é imaginar um período supostamente mais tranquilo que hoje.
Acredito que a evasão do tempo e espaço façam as pessoas, normalmente, a pensarem de forma ingênua num período bem melhor que hoje: menos pressa, menos velocidade, mais tempo para conversas...
Uma vida mais feliz e com mais simplicidade...
E depois de uma reflexão ilusória do passado, o inconsciente parece querer acreditar que não se trata somente de uma miragem, que a época não vivida deve sim, ter sido melhor...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Visitas


Na casa velha, sinais reais do tempo.
A velhice avançou, e não somente a idade.
Nos passos cada vez mais lentos e descoordenados, a aceleração da mesma.
De forma paradoxal, o tempo do envelhecimento insiste em apressar na lentidão.
A cada nova visita, a evidência e manifestação destes fatos.
O ambiente na sua forma concreta acaba refletindo e representando isso também.
Degradação visível pelas rachaduras nas paredes, frestas nas janelas, nas gretas, nos pisos.
A quem está mais próximo deste contexto, um drama maior, com evidências e sinalizações da perda.
É uma sensação angustiante: ver pessoas queridas indo aos poucos, a cada dia.
Em raras conversas, frases curtas, respostas monossilábicas...
Nas comunicações visuais, a apatia.
Em cada despedida, um intrínseco sentimento de adeus.
Aceitar o ritmo e processo natural da vida, sobretudo de quem muito se ama...
Nada fácil.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Vidas e contos


Com o passar dos anos, é natural que conheçamos muitas histórias interessantes de vidas de pessoas de luta.
Gente batalhadora.
Conversas inusitadas do cotidiano, leituras, entrevistas, palestras...
Tudo isso são fontes inesgotáveis de conhecimento das partes mais essenciais do ser humano: suas ideias, seus pensamentos, suas reações perante as dificuldades da vida.
Dentro deste contexto, vai se percebendo algumas situações curiosas...
Há pessoas que, simplesmente, não têm para onde voltar.
Para muitos, não são dadas alternativas.
O único caminho é seguir em frente, numa estrada de via única, sem acostamentos.
Nem guias, nem sinalização.
Para esta gente, as situações cotidianas pelas quais passam e exigem das mesmas contínuas ações não seriam, propriamente, nem mesmo um ato extremo de coragem, ousadia ou espírito de bravura, mas somente algo natural e inevitável a se seguir.
Nestes casos, o conceito de medo e receio é visto de uma forma completamente diferente: é como se fosse só mais um passo, na infinita estrada da vida.
Não há o que perder, o que deixar, o que abandonar: um considerável desapego.
E aí o tempo vai passando...
Para quem muito caminhou, após o arrastar dos anos, é natural que uma longa jornada tenha sido realizada.
E você começa a analisar a história dessas pessoas.
O relato e encadeamento dos fatos se misturam, transformando-se num conto.
No teatro da vida, o cenário é real.
Nem roteiro, nem rascunho.
Não há fantasia.
Nessa composição, a presença de algo inerentemente humano: dramas, angústias, alegrias, surpresas...
Nos momentos mais difíceis, os acontecimentos inexplicáveis, quebrando qualquer paradigma ou comprovação racional.
Em meio às cinzas, o sopro de vida.
Nas trevas da madrugada, o sol da manhã.
Na longa aridez, as gotas do orvalho.
O que seria isso?
É o milagre.
É a manifestação de Deus, conduzindo os passos de quem, porventura, tenha imaginado estar completamente abandonado.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Madrugada

Momentos de silêncio e reflexão.
Hora de pensar em situações que a correria diária acaba não permitindo.
O barulho da luz do dia se converte em novos ecos.
Situações do cotidiano emudecem.
O vento frio, a garoa e a névoa do horizonte transformam o pensamento ao olhar pela janela.
A insônia serena começa a dialogar.
Assuntos e observações introspectivas dominam a conversa.
A voz da consciência vira o protagonista no teatro da vida.
Nos pequenos detalhes, começo a sentir a presença de Deus.
O simples ganha notoriedade, e expande-se numa dimensão infinita.
Percepções sinestésicas ganham espaço.
Na janela aberta, a brisa fria da madrugada chega com o sopro divino.
Na escuridão, vejo a luz do céu entrar.
Ecos do coração soam com um timbre mais intenso.
Assisto a sinfonia, regida pelo maestro Supremo.
A paz interior e a consciência tranquila, no tardar das horas, conduzem-me à teofania.
Que momento!

Saudades

  Tempo que vai, que se arrasta, e saudade que sempre vem. Canções, versos, frases repetidas, gestos, manias, afinidades… No pensament...