domingo, 28 de agosto de 2016

Doutores


No currículo, títulos que eu nem imaginava que existiam.
Longas e longas páginas para descrever os conhecimentos.
Expostos ao longo do local de trabalho, mais uma constatação, a de que se estudou bastante.
Diplomas por todos os lugares possíveis, arquitetados propositalmente em direções onde os visitantes iriam ficar convencidos de que, naquela mente se agregam muito conhecimento.
Molduras no entorno de alguns títulos, sobretudo os mais importantes, reforçam ainda a formalização e registro dos feitos.
Num primeiro momento, a percepção é esta.
E não é para ter dúvida.
Não é mera coincidência.
É de propósito sim.
Eis que começa a convivência, onde a notoriedade sai do mundo acadêmico, e se vive uma realidade distinta do universo catedrático.
O cotidiano cobra por atitudes simples, nada de surrealismo de doutores e PhDs.
Começam os problemas.
O trivial torna-se, inexplicavelmente, complexo.
A simplicidade se converte num fluxo maluco de fórmulas matemáticas e estratosféricas típicas do mundo acadêmico, e a bola de neve começa a descer do Everest rumo ao oceano.
Trilham-se caminhos desnecessariamente árduos e meticulosos.
Não há espaço para diálogo, posto que não se conversam com pessoas, mas com doutores, ou ainda gente que está num nível bem superior a isso.
Qualquer tema fica dogmático, neste monólogo doentio.
E ai vem os questionamentos... Não por quem está acima da verdade, mas das pessoas comuns, naturais...
Pra quê tanto estudo?
Quanta titularidade!
Pra quê tudo isso?
Estudar é super importante, é a chave para a liberdade, é a chave para a vida.
O que se questionam aqui são exigências medíocres, ou do mercado ou do mundo acadêmico, que torna os doutores verdadeiros imbecis: pragmatismo zero.
Sim. Muitos hoje, num alto nível de graduação, estão estudando para se enquadrarem num padrão e contexto de idiotice.
Apegados a teses, conjecturas, teoremas e afins, esquecem completamente da família, de valores e principalmente da palavra diálogo.
É um desequilíbrio extremo.
Qual a fonte disso?
Um pouco talvez sejam as demandas do mundo acadêmico.
Mas a maioria das vezes é puramente por vaidade, um pleno e ridículo exercício de ego, de soberba.
Nestes casos, não se está mais estudando pela busca do conhecimento, longe disso.
A busca aqui transcende e desvirtua-se a do conhecimento, convertendo-se em ostentação, pedantice.
Esquecem completamente o simples, optando-se pateticamente pelo prestígio, congratulações, renomes, pompa.
É um paradoxo: Estudar demais para se tornar um imbecil.

Fotografias

Nas paredes, retratos variados, margeados em molduras das mais diversas formas.
Nas fotos mais antigas, um inevitável desgaste do tempo.
As cores opacas e meio que avermelhadas, traduzem o longo perpassar de muitas vidas.
Sem contar algumas em preto e branco, que forçam ainda um retorno maior na linha do tempo.
O que se vê não são mero objetos disponibilizados na forma de imagens desgastadas e distribuídas assimetricamente pela parede.
São relatos intrínsecos e extrínsecos de uma família, ou mesmo um agrupamento de pessoas ilustradas.
Neste universo, muitas faces não têm, mas deveriam ter, a conotação de máscaras.
A assimetria na estética dos retratos entra como coadjuvante nesta história, metaforizando as distorções e falta de linearidade da vida.
No registro de cada foto, uma postergação do momento. Não necessariamente para a eternidade, mas por um considerável tempo. Talvez até para esperar que no futuro se desestruturem as máscaras.
À medida que a observação vai acontecendo, a identificação de algumas pessoas em detrimento a outras completamente irreconhecíveis: muitos, inclusive, fadaram-se a um completo ostracismo.
Em alguns casos, os trajes típicos podem servir de auxílio para uma suposta estimativa de quando foi, em décadas, o registro das mesmas.
Como na maior parte das visitas ao passado, começa a tradução.
Auxiliado normalmente por alguém que se sente um perito naquele assunto, e profundo conhecedor dos fatos convertidos em imagens.
Neste momento, assuntos revelados sobre um olhar da parcialidade.
Na eventualidade da conspiração, a tentativa de consumar, em fato, algo que é superficial, ou meramente, um ponto de vista.
Nas nuances e encadeamento das palavras, a história delineia-se conforme os interesses do interlocutor.
Caminhos virtuais são criados, incorporados muitas vezes de retóricas sentimentalistas e persuasivas.
Nascem as mentiras, edificadas em uma suposta verdade.
...
Fotos não foram feitas para falar a verdade, só para registrar um instante.
Imagens nem sempre falam o que expressam, sobretudo se o registro estiver envolvendo gente dissimulada, ultrajada em cordeiro.
Por trás de muitos sorrisos e olhares, um submundo inimaginável e sombrio.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Aparências

Nos olhos, a entrada para a alma.
No coração, um porão repleto de histórias.
Confluências entre o inconsciente e realidades vividas, mesclados tudo num universo abissal.
Nos submundos da mente, a formação contínua de uma identidade: conexões, hiatos, sinapses...
Alegrias, tristezas, incertezas.
Interrogações contínuas e algumas respostas.
Parcialidades.
Atos heroicos, lutas, desânimos, omissões, complacências...
Ceticismos concomitantes à fé.
Vulnerabilidades muitas vezes superadas.
Na percepção externa, a possibilidade de múltiplas interpretações pelo visual.
Convicções precipitadas de um criptograma denso.
Nos alicerces da superficialidade, rótulos e padrões emergem para traduzir ao mundo aquilo que não tem como decifrar.
Nas frivolidades e aparências, os fundamentos para o veredicto alheio.
É o tribunal da vida.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Revelação

Nas veias, o sangue borbulhando.
Risco iminente de uma hemorragia emocional.
Nos ombros, um furioso vulcão expelindo lavas sobre a epiderme.
A fervura e ebulição do momento se convertem em completa alucinação.
Movimentos involuntários dos sentimentos.
Limite entre a realidade e o devaneio.
Imaginação surgindo em curtos momentos.
Pensamentos etéreos.
Concomitantemente, lapsos de memória.
Instantes parecendo durar uma eternidade.
Palavras falando menos que os olhares.
Completa desconexão.
Na visão externa, a tradução de uma completa tribulação.
Nos olhos, a abertura da alma.
O cadeado e as fechaduras da razão não conseguem fechar as portas do sentimento. 
Das pupilas emergem um interior sombrio do baú de memórias.
Assim como as areias escorrem pelas mãos, temperamentos gotejam das reentrâncias de uma vida.
A fraqueza humana se encharca de lágrimas.
Numa visão puramente subjetiva, desnuda-se a alma.
Flagrantes...
Exposição completa da fragilidade humana.

domingo, 10 de julho de 2016

Velhice

Nos movimentos, passos lentos.
Por todos os cantos da casa, o relógio dos sinais marcando, visivelmente, um novo ciclo.
Na ampulheta, os grãos de areia consomem, de forma intermitente, o tempo.
Pelos arredores, traços de senilidade.
Ausência de forças o suficiente para cadenciar uma velocidade maior.
Impor celeridade no compasso pode gerar perda de equilíbrio.
Neste momento, sinalizações que existem, fisicamente, privações.
Hábitos básicos do cotidiano requerem uma atenção especial.
Por mais que as ideias sejam condoreiras, a cautela é importante.
As articulações já não respondem, integralmente, às ações diárias.
Conflitos entre corpo e mente.
Aos mais próximos, a preocupação constante, posto que a observação cotidiana explicite claramente as limitações do idoso.
Ao protagonista, a resistência em aceitar a realidade que o acerca: discernimento relutante em condescender com sua situação.
Estágio da vida que exige renúncia de hábitos simples do cotidiano.
Necessidade de parar ou mesmo abrandar algumas atividades que, outrora, eram frequentes, rápidas.
Fase em que o refletir deveria acontecer mais que o fazer.
A velhice é um drama que todos, de alguma forma, passarão.
Mesmo assim, creio que sementes que formos disseminando ao longo da vida podem, de certa maneira, abrandar um pouco esta dura realidade.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Fatos tardios


 Neste mundo cheio de adversidades, fatores climáticos sempre geram surpresas no calendário das estações.
Este ano não foi diferente, e o espetáculo das árvores desta estação chegou relativamente atrasado. Cerca de um mês além do esperado.
Um pouco fora do tempo, mas chegou.
Em nossa vida também é assim: muitos acontecimentos chegam de forma tardia.
Quantas vezes os frutos amadurecem fora do tempo?
Quantas sementes lançamos na vida em terrenos com as mais variadas condições?
Temos situações, inclusive, que a longa espera se converte em esquecimento.
É curioso que, em alguns casos, obtemos o retorno da colheita em momentos que os resultados já não tem mais sentido, ou nem mais nos lembramos deles. São sonhos que se divergem nos meandros da vida, e depois se diluem nas águas do mar.
Uma iguaria perde seu valor se vier depois do seu horário, em situações que, literalmente, já se saciou a fome.
Na vida, pessoas lutam por conquistas veementes, com unhas e dentes. Debruçam-se sobre algo a que dedicam enorme esforço, deixando de lado ao que seja mais essencial.
E justamente por não ser tão importante é que, os resultados quando vêm, podem chegar em momentos já distintos e adversos, nos quais a contemplação seja consumida por uma total falta de sentido.
Desejos exauridos...
A vida tem seu calendário para cada um de nós: tudo tem seu tempo, e sem nenhuma regularidade como se esperaria para uma estação.
Entretanto, algumas colheitas na nossa vida podem já chegar com o prazo de validade expirado, sem a menor importância: sinalização de muito esforço em vão.
Que tentemos buscar sempre o essencial.
E sobre o que vale a pena: que não deixemos de esperar pelos frutos destas sementes selecionadas.   

domingo, 26 de junho de 2016

Chamado

No Antigo Testamento, Elias recebe do Senhor o chamado de ir até Eliseu, ungi-lo e transferir a ele o seu lugar, de profeta.
Eliseu afirma que sim, mas pede primeiro um tempo, de forma que possa despedir-se de seus pais.
Após um considerável tempo, e tendo dado um banquete de despedida, Eliseu, cumprindo o prometido, volta e põe-se ao serviço de Elias.
No Novo Testamento, Jesus encontra, ao longo de sua caminhada, uma pessoa pela estrada e convida este homem a segui-lo.
No contexto, o homem aceita. 
Entretanto, este pede a Jesus que ele possa, primeiramente, enterrar o seu pai que havia falecido.
Ao contrário de uma aceitação similar à de Elias, em situação relativamente parecida, Jesus não espera que o convidado resolva suas pendências para que possa então segui-lo: 'deixe que os mortos enterrem os mortos'.
Devemos estar atentos a estes chamados, e estar conscientes de que, na eventualidade de ocorrerem, e caso o desejo seja segui-lo, não é pra ficar pensando.
Ao aceite está associado um olhar novo.
Abraçar ao chamado do Senhor é desvincular-se completamente do passado...
Situação total de despojamento, de desapego.
É uma vida nova.
Detalhe: estamos a todo momento sendo convidados ao banquete com o Pai. Se não percebemos é porque o coração ainda não esteja aberto o suficiente para ler os sinais.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Limites


No início da vida, e pensando-se nos primeiros passos, dá-se mais atenção ao equilíbrio que ao destino.
Neste momento, conseguir estar de pé já vale como vitória.
Completada esta etapa, o destino já passa ser o esperado, posto que se esteja caminhando.
Por mais lento que seja o avanço, e por mais que não existam cobranças, espera-se chegar a algum lugar.
Passada a infância, gradativamente vão crescendo as demandas, as velocidades de execução das atividades no geral.
Na faculdade, dependendo do curso e das pessoas, obrigações do mundo acadêmico podem exigir entregas rápidas demais se comparadas à capacidade de atender às solicitações.
Isso fica irrelevante, se compararmos este ritmo ao do mundo corporativo.
Neste caso, os prazos de realização dos serviços são cada vez mais curtos.
Já não basta mais chegar, é preciso chegar logo.
Estamos desordenados, numa velocidade caoticamente progressiva.
E aí vem o questionamento: quanto mais se conseguiria acelerar?
Até onde vai o limite?
Metaforizando-se o tema com uma carruagem, e estando nós no comando da mesma...
Começamos passo a passo.
Depois de um tempo já estamos correndo.
Em ritmo frenético, e já acelerado, perdemos a noção real se a carruagem está à frente ou não do seu devido lugar.
E neste momento, o que fazer?
Sinais de que o mundo virou de pernas pro ar.
Mudou-se o fluxo natural de coisas.
Hora de parar, de realinhar tudo e cadenciar o que nos acerca.
É preciso ter uma alternativa, uma estrada nova.
Tem de haver um jeito!
Continuar correndo nesta exacerbação, sem tempo para reflexão e raciocínio, abre-se margem para um caminho em que se erra mais que se acerta.
É ultrapassar a linha de erros que, na nossa condição de humanos, já iríamos inevitavelmente cometer. 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Rotina

Ao longo do dia, a situação exige atenção.
A rotina começa cedo, bem próxima ao raiar.
O cuidado se inicia ao amanhecer.
Pela manhã, a visita já traz o banho.
A dificuldade de acesso e mobilidade requer cuidados especiais.
O corpo já franzino, e sem muita ação, pede carinho.
Passos lentos.
Movimentos peculiares.
Rotinas de silêncio.
Alimentação regrada.
Alerta constante.
Bem mais que as pernas, o coração e a mente caminham.
O desenrolar das tarefas imprescindíveis ajuda a abstrair pensamentos da realidade.
Não há tempo para racionalizar demais.
Forças sobrenaturais do alto dão suporte contínuo.
Nos pequenos detalhes, raios de sol incidem nas frestas, mesmo pela noite.
Formalidades sociais sugerem sempre alguma aparição inusitada: frivolidade, pressa, frieza.
Laços desfeitos.
Afetos dispersos.
Como obra do acaso, visitas humanas e espirituais.
Associações novas.
Fatos consumados.
Vida que se segue na rotina de idosos com mobilidade reduzida.

Brevidade

Andando pelas ruas, nenhum sinal de gente.
Raríssimos carros.
Ladeiras vazias.
Nem carroças, nem charretes.
É domingo, e o frio acomodou as pessoas em suas casas.
Venta muito.
Nas calçadas, muitas castanheiras, com as copas bem grandes.
Nos ares, uma verdadeira chuva de folhas secas.
Pelo chão, um tapete natural esconde o concreto, os ladrilhos, as pedras...
A ventania sinaliza a partida.
Folhas, que antes extraíram a luz do sol e gás do ar, colaborando com o crescimento, agora se despedem dos troncos.
Já não há mais seiva, já não corre vida nas veias.
Elas estão indo, mas fizeram a sua parte: edificaram as árvores.
Na orquestra da natureza, ventos ecoam notas de um réquiem, e celebram o término do outono.
Cerra-se um ciclo.
Sinais dos tempos.
Na nossa vida, situações semelhantes.
Tudo passa, e muito rápido.
Depois de uns anos vividos, percebe-se que o ponteiro do relógio corre mais rápido do que imaginamos. Nitidamente.
Nascemos para construir e produzir algo, pra fazer a diferença.
Talvez a consciência desta brevidade da vida, e a certeza de que um dia vamos partir, seja mais um tom para se refletir: o de que temos um tempo curtíssimo para contribuirmos e deixarmos um legado.
Mesmo que a dádiva que nos foi dada seja enorme, ela não é eterna.

Encontros

Aos poucos os carros vão chegando...
Alguns no horário, outros tradicionalmente atrasados.
Muitos percorreram longas distâncias para chegarem.
Saudações?
Quando existem, vão para conhecidos ou mesmo gente nova.
Visitas sempre trazem algo inusitado, desde o pavão até a avestruz.
O entrosamento é facilitado se houver proatividade e abstração de muitos detalhes.
Assuntos?
Mais de coisas, mais do alheio, menos da vida.
Aos questionamentos: respostas monossilábicas, frases curtas.
A etnia é muitas vezes a mesma. Mesmo assim, cada um nas suas individualidades e nos seus ostracismos.
Para os de mais idade, o fator tempo mostra que as mudanças foram mais externas: cabelos brancos, rugas...
A exaltação da prática da virtude mostra que os fariseus ainda existem.
O ambiente, acostumado a uma realidade com menos pessoas, muda rápido com tanta gente.
Dependendo do momento que se chega, espaços já estão limitados...
Um lugar aqui, outro ali, adaptações de uns, concessões aborrecidas de outros. Enfim, todos se assentam, todos se ajeitam.
É...
Unir esse povo todo nem sempre é fácil: distâncias, compromissos pessoais, correrias da vida, ausências propositais...
Para alguns, abster-se com justificativas nada persuasivas é ainda melhor que se mostrar fisicamente presente.
Para outros, a presença é condicionada às ausências de terceiros. Neste caso, algumas confirmações somente são na última hora.
Um olhar externo e imparcial observaria, nitidamente, todas estas descrições.
Para que a aglomeração aconteça, alguns se comprometem por todos. E com o passar dos anos, a conta sobra sempre para os mesmos.
Como em todos reencontros...
Para a maioria, ele é importante, agregador, emocionante... Para outros, uma obrigação inevitável, um fardo a carregar, que se transforma numa luta com as horas, com o relógio.
No cardápio, sempre algo atrativamente gastronômico, focado muitas vezes na diversidade.
Aos pratos, uma associação de paladares com sentimentos de outrora.
Receitas de antepassados, muitas vezes de entes queridos, dão um tempero adicional. E as especialidades no fogão de alguns podem fazer a diferença.
Se a cultura musical for grande, abre-se espaço maior para a emoção, com danças, cantigas, instrumentos... E com o ambiente musical, é mais provável que fique mais harmônico, mesmo que as notas vocais sejam dissonantes, pra não dizer desafinadas.
Se o assunto ficar muito sério e tenso, dependendo do tema, o caminho da conversa corre o risco de desviar-se para rotas do passado, com uma enorme possibilidade de exaltação de desafetos, afloramento de mágoas...
No final, tem sempre os que precisam ir antes do planejado, pelo excesso de correrias, atribulações. Por outro lado, há aqueles que insistem em ficar um pouco mais, seja pelo apreço e felicidade de viver aquele momento mais intensamente, ou seja mesmo pela total falta de percepção de que já gastaram suas cotas, suas fichas.
Nas despedidas, o compromisso de que em breve, irão se reencontrar.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Comunicação

O tempo todo devemos nos comunicar.
A interação com outras pessoas é algo imprescindível no mundo em que vivemos, sobretudo no meio globalizado.
Isso não é um problema para um ermitão, um silvícola…mas para pessoas que vivam da informação isso sim é necessário.
O meio familiar também exige isso de nós, posto que devemos conviver com pessoas consideravelmente difíceis, sobretudo em eventos onde, teoricamente, deveria se ir para distrair, para jogar conversa fora, para relaxar.
Entretanto, o ato em si não é tão simples para qualquer pessoa, exige todo um conhecimento prévio com quem se esteja lidando.
Conhecer as palavras certas a serem ditas a cada indivíduo é algo nada simples.
A simplicidade da comunicação pode tornar-se complexa numa fração de minutos, segundos.
Problemas já se iniciam antes mesmo da fala, através da linguagem corporal, seja pelo sorriso amarelo, as palavras proferidas dos olhos, o aperto das mãos…
A verbalização pode exigir tantos detalhes que, às vezes, a melhor resposta é o silêncio.
Acontece que em muitas situações, não tem como se fugir, e não nos é dada a possibilidade de fazermos um esboço, rascunho ou planejamento do que será dito.
Entender e racionalizar que existem pessoas de todo o tipo, e que todos têm sim direito ao exercício das suas individualidades já é um bom começo para aceitar, com serenidade, situações com as quais não concordamos.
Às vezes, devemos beber água sem ao menos estar com sede.
É ir vivendo pra perceber isso.
Nesse jogo da comunicação, surgem também algumas curiosidades inusitadas e intrínsecas.
Há pessoas que preferem conversar por email e/ou mídias das mais variadas, conseguindo se expressarem melhor que através do dialogo direto e tradicional.
Isso é válido?
Pensando-se numa premissa maior, em que o mais importante seja transmitir a informação, independente do meio ou canal utilizado, isso sim é plenamente aceitável.
Mesmo assim, eu particularmente prefiro o método tradicional: a conversa.

Lacunas

Com os pés descalços, uma longa estrada pela frente
Despedidas convertendo-se em adeus
Casas em ruínas
Hiatos
Lentidão acelerada
Rachaduras nas paredes
Frestas se abrindo
Mentiras emergindo das gretas
Descrenças nas verbalizações
Explicações sem persuasão
Chaves enferrujando
Portas cerradas
Frivolidades
Encontros impessoais
Palavras emudecidas
Ecos de silêncio
Serenata sem cantor
Aurora sem aubade
Pensamentos evasivos
Diálogos com o tempo
Olhar introspectivo
Meias verdades na penumbra
Luz ofuscada pelo céu nublado
Visitas desmarcadas
Lágrimas secas
Notas desarmônicas
Orfandades...
Acertos, desacertos
E na contramão... passos continuamente descontínuos.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Chuva


Outono terminando com prenúncios de inverno...
Folhas secas no chão e sinais que a renovação já iniciou seu processo natural.
A vida de muitas pessoas pode não mudar, mas da natureza sim. Aliás, intermitentemente. Ela segue seus ciclos, suas estações, mesmo que isso não seja rígido, tendo tido algumas ligeiras distorções climáticas nos últimos tempos.
Seguindo as características típicas desta estação no interior paulista: pouca chuva, tempo seco.
O período de colheita dos canaviais reforça as queimadas, que reduzem significativamente a umidade do ar.
Problemas respiratórios aos montes.
Ao longo do dia e ao entardecer, céu nublado.
Nuvens num tom cinzento traduzem um sinal típico da época.
A preocupação normal é com frio, não com chuva.
Porém, o inesperado para esta época.
Eis que surge a chuva, contradizendo as previsões do tempo.
Algo bem natural e correlacionado com a metáfora da vida, que mesmo planejando e se precavendo, somos surpreendidos pelo imprevisto, e pelos fatores externos que nos trazem o acaso.
A terra sedenta de água agradece, posto que nem esperasse por isso.
A intensidade suave das gotas que caem dos céus é agradecida e saudada com o início da noite.
A temperatura despencou, e o frio nos induz a hábitos estritamente caseiros: momentos para reflexão.
Nos arredores da sala, a penumbra e o jogo de luzes harmonizam o ambiente, conjugado com a insônia e regado, adicionalmente, pela cafeína.
Grãos torrados recentemente e moídos na hora exalam um cheiro genuíno e contemplativo.
Mesmo sabendo que o dia seguinte alerte para que levantemos cedo, os pensamentos que, ao longo do dia perdem espaços para as correrias, querem agora falar sobre pendências e pedem espaço para um diálogo reflexivo.
Do lado de fora, o silêncio da cidade reforça, de maneira uníssona, o ruído da natureza.
A serenata se manifesta nos ecos.
A brandura da queda insinua que o ritmo dos sons vai longe, varando a madrugada.
Lá pelas tantas, a serenata vai terminar, e no final dará seu último suspiro.
Mas o espetáculo não deve acabar, a turma do aubade já está pronta para comandar os sons até a aurora.

Saudades

  Tempo que vai, que se arrasta, e saudade que sempre vem. Canções, versos, frases repetidas, gestos, manias, afinidades… No pensament...