quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Constatações

No silêncio do entardecer, ruídos da ventania emergem incessantemente.
O frio inesperado deixou muita gente acolhida em casa.
A esta hora, todos dormindo.
Nada de serenata.
Ecoa a quietude.
Conversa só mesmo com a consciência.
Neste exercício do silêncio, lembranças à mente de longos caminhos percorridos.
Quantas pequenas despedidas diárias!
Na escolha intermitente do percurso, renúncias e abdicações.
Falsos atalhos convertidos meramente em rotas sem saída.
Ansiedades desnecessárias.
Preocupações com futilidades.
Na caminhada diária, um esforço contínuo.
Concomitantemente à fé, o trabalho.
No olhar externo, o pensamento cria uma linha imaginária do tempo.
Na análise dos anos, a percepção, muitas vezes tardia, de pequenos milagres.
Revelações, sutilmente divinas, muitas vezes não percebidas no seu devido momento.
Constatações...
Trechos e passagens verdadeiras, ao longo das tortuosas estradas da vida, estão ligados por pontes meramente simbólicas.
São os pequenos milagres que ditam, significativamente, o rumo da vida.
A todo momento, Deus se mostra presente nos detalhes.

Entendimentos e direções

Nos arredores, problemas recorrentes e de certa forma inevitáveis.
Soluções emergenciais dão a falsa impressão de que, em breve, tudo se resolve.
Promessas de alguns arriscam otimizar a perspectiva do desfecho. Contudo, o transcorrer dos dias vai provando o contrário.
Nas tribulações do cotidiano, ações imediatas demandam respostas essencialmente reativas.
Toda energia toda se desvia da proatividade: dispersão. Aliás, difícil encontrar momentos para isso.
Eis que, por acaso, o olhar encontra espaço para focar-se num horizonte distinto, quebrando completamente o ritmo frenético e vicioso de até então.
Muda-se a forma de observação.
As lentes já não são as mesmas.
O olhar distante gera um paradoxo: enxerga-se menos quando se está próximo.
Detalhes são vistos melhores à distância.
A perspectiva e análise atual contrapõem-se as de outrora.
Começa-se a notar quão inerte é o movimento exaustivamente focado.
Apreciam-se novas alternativas, muitas inimagináveis.
É...
Um modo diferenciado para interpretarmos os fatos...
Pode haver sim!
Novos caminhos, no complexo mapa de rotas da vida, podem ser desbravados se tentarmos vê-los sobre uma nova concepção.
Detalhe: as sinalizações não estarão nas placas, mas nas minúcias e sutilezas.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Discursos

Nas palavras, as argumentações buscam fundamentos coerentes.
Em boa parte delas, verdades propositalmente exaltadas compõem o discurso.
O tom de voz impõe uma cadência contínua e segura.
Nas situações mais duvidosas, estratégias de escapismo fornecem uma rota de fuga já conhecida.
Ao longo da fala, a retórica ganha credibilidade, sobretudo para a maioria dos temas.
No encadeamento da expressão oral, uma dinâmica das reações dos ouvintes vai acontecendo concomitantemente.
A análise constante do interlocutor, por meio de suas expressões não verbais, permite até mudanças no ritmo da preleção.
Situações nas quais se identifique que, na persuasão não esteja havendo um desempenho contundente, apelos para o emocional e, de maneira sutil, podem facilitar na oratória.
O clima de espontaneidade e casualidade deixa passar despercebido todo um planejamento e estudos minuciosos.
Embora para alguns isso não seja percebido, todo o conteúdo a ser abordado já foi pensado previamente, assim como num jogo de xadrez.
Por outro lado, no ouvinte, a necessidade de que todo aquele enunciado seja capaz de ecoar a verdade, e que tudo não seja mais que uma mera ilusão.
Crenças nos discursos...
Ilusões...
A angústia e carência de alternativas reforçam a necessidade de crer naquele pacote de argumentações, com verdades destacadas que levem consigo mentiras e interesses obscurecidos.
Inserida num contexto em que não existam nem mesmo portas fechadas, mas um vazio defronte uma muralha de barreiras, a fé levanta das cinzas para se manifestar, numa atitude meramente em vão.
Que tenhamos a capacidade de acreditar sempre nas pessoas, e em tudo que a vida possa nos trazer, sem que isso nos leve a ingenuidade.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Padroeira

A data se aproxima.
O dia da Padroeira está chegando.
Hotéis e pousadas praticamente lotados.
Alguns cancelamentos de última hora são a esperança de muitos para conseguirem uma vaga e pernoitar na cidade sagrada.
Nas cidades vizinhas, o reflexo da superlotação, e a alternativa para quem não achou um local para ficar.
Para os comerciantes locais, a possibilidade de ganhos com a venda de artigos religiosos. Neste período, para muitos está uma oportunidade financeira, seja na hotelaria, seja no comércio e nos serviços.
Pelas ruas, um aglomerado de gente, causando em muitos casos, dificuldades de acesso aos pontos principais.
E o movimento não pára.
De todos os lados, gente chegando do Brasil ou mesmo do exterior.
Nas placas dos veículos, a identificação de que se veio de bem longe, dos mais variados estados.
Cada um com sua fé, com sua cruz, problemas, tribulações, dificuldades, promessas.
Muitos somente vêm para agradecer, sentindo-se gratos pelos milagres já alcançados, ao passo que outros, para reforçarem a devoção.
Excursões aos montes.
Em muitos casos, camisas confeccionadas especialmente para a data definem o grupo que chegou, sendo critério facilitador de procura de algum perdido no meio da multidão.
Dentre este universo de romeiros, situações das mais variadas.
Há muitos que estão ali pela simples ideia do passeio, pela curiosidade de conhecer o local, e neste caso, com a questão da religiosidade e espiritualidade em segundo ou terceiro planos.
Pela rodovia, gente chegando pelos mais diferentes meios: ônibus, caminhão, carro, carroça, moto, bicicleta, a pé...
No bolso, muitos levam somente a fé de dias melhores, já que as moedas foram suficientes somente para pagar a ida e a hospedagem precária.
Há outros ainda que paguem por meses as parcelas desta viagem.
Nas proximidades da Basílica, o olhar de admiração e encantamento para quem está chegando pela primeira vez.
Pela passarela, o ritual de cada um toca o ritmo variado e aleatório da Igreja Velha até o Santuário.
No movimento, alguns com dificuldades físicas extremas retiram do corpo o máximo das forças físicas para chegar até a imagem, ou mesmo cumprir alguma promessa feita. Em outros, ao longo do trajeto, a percepção que o grande esforço se converte em pequenos ferimentos.
Vale tudo, e a santa conhece as particularidades e histórias de cada filho que vem aos seus pés suplicar pelo seu olhar, sua proteção, suas graças. Não há espaço para julgar a atitude de cada um.
Em muitos rostos, a emoção a flor da pele. Na expressão corporal, a fala do coração dispensa palavras. Os olhos, em especial, já falam por si, com rios de lágrimas e emoções, misturados com cansaço, suor e  fé no meio da multidão.
Na sala dos milagres, a constatação de que são incontáveis as manifestações da mãezinha na vida dos que lhe são fiéis. E de quão sobrenaturais podem ser as suas intercessões por nós junto ao seu filho.
Ao longo do dia, padres celebram missas a cada hora. Só não assiste uma mesmo quem não fizer um mínimo esforço.
Dentro da igreja, as colunas enormes exaltam o segundo maior templo católico do mundo, só menor que a Basílica de São Pedro, no Vaticano.
Sob a enorme estrutura, sustentada por gigantes colunas, um olhar paradoxal sobre a arquitetura remete à constatação do quanto somos pequenos diante do Pai. E nesta mesma alusão, quão grande pode ser a misericórdia do Supremo sobre nós.
Num canto especial da enorme Igreja, envolvida sobre o manto azul de rainha, cercada nos arredores por ouro, uma imagem que comove e encanta aos fiéis.
Eis a Padroeira, aquela que concebeu o filho do Deus.
A intercessora do primeiro milagre de Jesus, e de nossos pedidos junto ao Pai.
A santa que surge das águas, pela rede de pescadores.
A salvação e refúgio para os oprimidos.
O porto seguro dos náufragos.
Símbolo de fé e mistério...
Uma mulher que supera os fundamentos e comprovações da ciência.
Capaz de mudar os corações daqueles que passam defronte de si pela primeira vez, mesmo que curiosos, despretensiosos, ou céticos até então.
Numa pequena imagem, a tradução de todos nós.
Ela identifica não somente os negros, mas todas as raças e todas as cores.
É um modelo de comportamento humano a ser seguido, respeitado e glorificado.
Seu simples olhar é instrumento para dar nos paz de espírito, e forças para que continuemos nossa caminhada, neste mundo de incertezas e problemas por todos os lados.
(..)
A quem ainda não conheça, sugiro uma visita ao Santuário, seja na data festiva ou mesmo em qualquer dia do ano.
Com a santa não precisa de formalidades, horários.
Independente do dia, ela sempre estará de braços abertos para nos receber, e ouvir nosso coração.
Visite, e defronte teus olhos para a Virgem.
Aquela que pode mudar para sempre a sua vida.
É uma experiência muito pessoal , um extremo de piedade, que somente o coração de cada um poderá sentir e descrever.
Algo que vai além de todo sentimento mundano.
(...)
Nossa Senhora rogue por nós.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Vida simples

Na cozinha, o chão de cimento queimado, em tom de vermelho, com leves fissuras.
Pela madrugada, o despertar do galo já tirou muita gente da cama.
Nada fora da rotina, trata-se de um hábito.
No assoalho, a lenha rachada já está preparada para a demanda do dia.
Os estalos de madeira no fogão a lenha aquecem a cozinha e os cômodos mais próximos.
Ao longo do dia, o fogão praticamente não esfria.
Na aurora, os músculos já vão se aquecendo em ambos os sentidos: físico e térmico.
Na essência da casa, um propósito não formalizado, mas implícito: a exaltação do que é essencial.
A vida ganha destaque num cenário rústico e humilde.
Na despensa, uma prateleira organiza os alimentos.
A carne conservada na banha de porco está pronta e convidativa para quem, eventualmente venha visitar.
Ovos de galinha em excesso evocam a necessidade de utilizá-los com alguma iguaria. E caso a receita seja maior que a demanda da casa, não tem problema, manda-se para os vizinhos mais próximos, segundo princípios culturais da partilha e boa vizinhança.
O tacho de cobre, entregue depois do conserto, e abóboras a seu redor sugerem também que está na hora de fazer mais um doce no fim da tarde. Neste caso, havendo um tempinho, já é bom amolar o canivete picador de fumo para descascar as mesmas. E não havendo açúcar ou rapadura suficiente, melhor já comprar no armazém de secos e molhados.
Na varanda de fora da casa, o moedor de café está pronto para fazer mais uma moedura pela manhã.
Vasilhas areadas na parede e as xícaras esmaltadas aguardam o primeiro café da manhã, coado na flanela higienicamente lavada.
O contato do pó com a água fervente exala um perfume de cafeína pelos arredores.
Na parede, sinais que se deve passar barro branco novamente, posto que a fumaça do fogão escurece a mesma. O asseio preza por mais uma limpeza.
Penduradas no alto, vasilhas areadas ganham destaque, produzindo reflexos de limpeza. Brilho este que surge depois de muito esforço na lavagem com o sabão de barra, feito com abacate, soda cáustica e sebo de porco.
Ao longo do dia, trabalho pela frente.
E as coisas acontecem por uma lógica e fluxos naturais, há esforço e vontade das pessoas.
No fim do dia, depois de um banho e do jantar, pausa para conversas na cozinha.
Em paralelo, tarefas leves vão sendo executadas, concomitantemente, dentro da casa.
Nesta hora diminui-se consideravelmente o ritmo, mas ainda não se parou.
Catam-se os grãos do feijão, do arroz...
Selecionam-se os melhores grãos/sementes para o plantio...
Já de noite, mas não tão tarde, encerra-se mais um dia, de trabalho e realizações.
O corpo cansado (fisicamente) tem, no hábito, elementos e tarefas suficientes para preencher a mente.
O modesto e o simples ganham notoriedade.

Gente

Nas finanças, um planejamento informal das contas permite passar o mês sem entrar no vermelho.
Se o dinheiro faltar, um bico aqui outro ali garantem sobrevida do bolso e da carteira.     
Na ida ao trabalho, longos engarrafamentos diários afetam o humor, tanto na ida quanto na volta, consumindo horas diárias sem utilidade.
No serviço, risco iminente de perda do emprego.
Em casa, a parede mostra sinais que demandam uma pintura nova. O ultimo puxadinho encerrou-se incompleto.
Nos destinos com automóvel, o constante receio de uma eventual colisão ou roubo. Utilizar-se de veículos alheios é sempre a melhor alternativa.
Nos rateios de despesas, a tradicional retórica.
Nos hábitos simples e diários, o exercício de um conceito, independente da situação e contexto.  Mesmo sem saber das teorias de Maquiavel, faz-se um pragmatismo de suas teorias.
Aos erros, a retórica lacrimal e convincente dá sobrevida às mascaras.
Aos encontros, muitas vezes inevitáveis, a tradução de uma felicidade inerentemente frívola e de ostentação.
No silêncio da noite, a aparente e contínua afonia da consciência.
Vida que segue.

Caminhada

Na estrada...
Passos recomeçam diariamente, ainda temprano, rumo ao desconhecido.
Para celebrar o reinicio de mais uma batalha diária, na madrugada, a saudação matutina dos pássaros.
Dão-se os primeiros passos.
Planejada ou não, a travessia vai conduzindo a um caminho desconhecido, fadado a intempéries e surpresas.
Longas estradas sob o sol meridiano do deserto, ou  ao silêncio da noite.
Na bagagem, um conteúdo que vai se renovando ao longo dos dias, semanas, anos. Tudo isso conforme as experiências acumuladas.
Ao longo dos trechos, pesos e preocupações de outrora vão caindo num estado de insignificância, sendo removidos e arremessados para as lixeiras da vida.
Na mente do peregrino, a busca diária defronta-se intermitentemente com as escolhas.
Prudência nas decisões perante um universo de incertezas, mistérios, superficialidades.
Nas paradas, momentos de esvaziar-se do desnecessário.
Em muitos momentos, reflexões contínuas reorganizam as ideias misturadas no baralho da vida.
E depois de um tempo, mesmo na constância da dúvida, o afloramento dos sentidos induz a percorrer atalhos, poupando-se rotas desnecessárias.
Já neste estágio, chegam-se a pontos mais longínquos caminhando-se menos.
E se percebe que as grandes travessias se fazem com os passos das ideias, não dos pés.

Divagações

Há um sentimento vagando por aí... Verbalizado nos mais extrovertidos. Ofuscado de distintas formas, sobretudo nos âmagos mais fechados,...