terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Professores

Na lousa, a conversão do conhecimento utiliza-se do giz, ou mesmo carvão, para transmitir o conhecimento.
Tempos consumidos na transcrição da informação que poderia ser melhores aproveitados.
É notável que já existam recursos e tecnologias avançadas de ensino, mas nos grotões e nas alterosas da vida, o quadro negro se faz presente, e não deve desaparecer tão cedo.
Educação de massa nunca foi prioridade na nossa cultura, salvo contáveis e pontuais movimentos.
Aos originários da rede pública, a capacitação vem, na maioria dos casos, por iniciativa própria.
Para os que têm esta profissão como ofício, um amor superior ao dinheiro, posto que os salários não sejam nada convidativos.
Em meio às condições externas e financeiras adversas, a necessidade de uma motivação pessoal para estar numa sala de aula.
Nas atividades extraclasses, o cuidado com a ementa/conteúdo nem sempre é feito de maneira consistente. Muitas vezes, este horário é utilizado para obter uma renda extra, para compensar a defasagem salarial.
Anualmente, nos períodos de definição e negociação do dissidio para correção dos proventos perante a inflação, uma humilhação que se converte em greves. Protestos que duram semanas ou até meses.
Sobre os recursos e meios que se tem para trabalhar... A carência dos mesmos é uma característica presente no cotidiano do mestre.
Receptividade de alunos? Isso nem sempre vai acontecer. E se o nível de exigência aumentar, supostamente a rejeição cresce, bem como a cordialidade.
Respeito? Bem menos que outrora. E em casos extremos, que estão se tornando frequentes, vem até mesmo a inaceitável agressão.
A cada novo dia, uma luta neste ambiente adverso.
Energias devem ser renovadas diariamente, posto que a tarefa seja árdua. Mas, realizar isso é quase como fazer magica.
Data comemorativa? 15 de outubro, concomitante ao dia de Santa Tereza Dávila, a padroeira e intercessora dos docentes.
Ensinar...
O processo de ensino já começa defasado de muitas premissas básicas, antes mesmo do início da aula.
Dentro da sala, há muitos fatores inexistentes que deveria haver, intrinsecamente, para que a interação do ensino se estabeleça harmonicamente entre aluno e mestre.
Exercer esta profissão e transmitir conhecimento, sobretudo em escolas públicas, tornou-se um ato heroico. Gestores não se preocupam com capacitação dos mesmos. E as boas práticas e metodologias às avessas de alguns não são difundidas com um processo de boa conduta.
Ser professor é algo, literalmente, para um mestre.

Motoristas

Vivendo na estrada.
No giro das rodas, o transcorrer da vida.
Em cada curva, uma incerteza. 
Mesmo percorrendo alguns caminhos repetidas vezes, há sempre a possibilidade do inusitado: a atenção é uma constante.
Junto às cargas, o transporte de sentimentos.
Ao longo dos trajetos, infinitas conversas com o pensamento, em vastos períodos de solidão. Nestes, a possibilidade de reflexão sobre atitudes tomadas ao longo da vida.
Sons se manifestam de várias maneiras o tempo todo: motor, ruído, buzina, música, outros veículos...
Na correria do transporte, muitas refeições rápidas. Nem sempre se faz uma parada, e a alimentação acontece em movimento mesmo.
Nas paradas, cuidados especiais e variados: segurança, alimentação, banho, pausa ligeira. Normalmente, nos pontos mais selecionados, há um custo adicional a se contabilizar: algo bom, e de graça, nem sempre é possível. E aos melhores locais, a explícita necessidade de se consumir produtos ou serviços, o que pode onerar bastante e não valer a pena.
Sono e cansaço ficam em segundo plano quando o valor da empreitada for baixo: horas a mais para compensar o trabalho.
No descanso, uma economia a mais, com as devidas adaptações. É o costume.
Para dormir, pousada ou hotel são uma raridade. O que existe é uma acomodação, nem sempre confortável, na boleia.
Festa da família: algo singular e esporádico. Nem tem como. E em muitas delas, os contratempos ao longo do caminho lhes impedem de voltar a casa para participar, antecipadamente, de algumas destas raras oportunidades.
Filhos e esposas acabam se virando para resolver seus problemas, desde os mais básicos, e até mesmo se acostumam com a distância e ausência.
Muitas vezes, o emocional aumenta o peso das cargas: saudade, dificuldade financeira, insegurança, distrato nas paradas.
Na balança da vida, a avaliação das vantagens e desvantagens é algo recorrentemente inconsciente. Sempre há devaneios associados ao amor à profissão em contraposição ao desejo de abandono da mesma.
Fatores como falta de novas alternativas, dificuldade financeira e necessidade de trabalhar são alguns dos ingredientes suficientes para esmagar saudade, distância e convívio da família. E, para muitos, esse drama vira um circulo vicioso.
Na parte externa do veículo, distribuídas por todos os cantos, em especial no para-choque, há sempre alguma mensagem marcante de, variada e muitas vezes inusitada característica: romântica, religiosa, filosófica, engraçada. Trata-se de um hábito que surgiu na Argentina na década de 50, inicialmente nos ônibus, e que logo virou moda e tomou conta das estradas do Brasil.
Na manifestação da fé, especialmente dos cristãos, a crença e devoção em São Cristóvão: padroeiro dos motoristas e peregrinos.
Em cada coração, uma crença. E a certeza de que, embora solitários fisicamente, há sempre uma companhia espiritual que os impulsiona e lhes dá energia o bastante para suportar, diariamente, uma vida difícil, árdua e muito perigosa.
Que o Santo guie a todos, pelas estradas desta vida.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Brevidade

Ao longo da vida, caminhos traçados na areia.
Preocupações aos montes com frivolidades.
Noites sem sono, em vão, mal dormidas.
Inutilidades exauridas com expectativas futuras que nem sempre se celebram.
No cotidiano, pegadas delineadas em frágeis terrenos vão fluindo ao desencadear dos feitos.
Raízes inúteis que nada sustentam.
Histórias variadas que não se consolidam em manuscritos ou pergaminhos.
Nas turbulências, a falsa pretensão de eternidade vai sendo diluída ao renascimento das manhãs. E nos primeiros dias, marcas enfáticas sinalizam a falsa ideia de sofrimentos duradouros.
Na proximidade dos acontecimentos, nem mesmo a poeira e suas peculiaridades conseguem denotar quão volátil é o tempo, e quão passageiros serão os momentos.
Registros temporários da mente ousam resistir, inertemente, à brevidade das coisas.
Na vulnerabilidade do cotidiano, a memória vai desvanecendo aos passar dos dias, fadando-se ao esquecimento.
No fim, grãos de areia da história, concomitantes às preocupações, diluem-se em pó, na imensidão do deserto.
Desconstituem-se fatos.
Sem rastros, nem vestígios, turbulências etéreas pulverizam-se no movimento e ruído dos ventos.
Tudo suporta, tudo é passageiro, no bater e rolar de tantas pedras.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Degradação

Ao observar o casarão, sinais da decadência.
Numa alusão à ampulheta, boa parte dos grãos de areia já se consumiram: falta pouco.
Faz tempo que não mora mais ninguém naquela propriedade.
Estruturas, outrora edificadas, hoje mostram o consumo e desgaste sofrido pelas intempéries.
Protegidos pelo frágil telhado, novos moradores improvisados ocupam lacunas: pombos aos montes.
A movimentação pombalina inibe qualquer possibilidade de silêncio.
Andar pela casa exige cautela, o piso pode gerar alguma surpresa nos seus frágeis e apodrecidos alicerces.
No forro, gretas por todos os lados clareiam o interior da casa durante o dia, mesmo com as venezianas fechadas.
Em meio aos corredores e divisões da casa, muitos encontrariam associações com o passado memorial.
Para quem viveu ou conviveu naquela quinta, imagino que as paredes tenham muito a falar.
Neste cenário, evasão no tempo e espaço seriam algo inevitáveis, sobretudo para aqueles que outrora circulavam por lá.
Sobre o olhar externo e da imparcialidade, vejo que nas lembranças ainda há algo concreto vinculado ao passado, mesmo que mirrado e em ruínas.
Isso parece ser por pouco tempo, posto que esta materialidade logo vá se ruir
O prédio está fadado, inevitavelmente, à demolição.
Em breve, tudo se converterá em pó.
E aquele solar, que viveu por longos anos os ares da prosperidade sob a égide de um patriarca, será convertido ao vazio, ao nada.
Reminiscências só haverá nas lembranças, posto que a matéria, em todos os sentidos, pulverizou-se pela terra e dissipou-se no oceano.
Da aristocracia, somente ficaram os sobrenomes de espólio.
Sustentar padrões e valores sociais saiu caro.
A vaidade exauriu o patrimônio.
Somente herdeiros, nada de sucessor.
Ares de uma nobreza decadente ainda correm nas veias e insistem em se reafirmarem, mas perdem forças com uma realidade antagônica ao passado.

Divagações

Há um sentimento vagando por aí... Verbalizado nos mais extrovertidos. Ofuscado de distintas formas, sobretudo nos âmagos mais fechados,...