domingo, 26 de junho de 2016

Chamado

No Antigo Testamento, Elias recebe do Senhor o chamado de ir até Eliseu, ungi-lo e transferir a ele o seu lugar, de profeta.
Eliseu afirma que sim, mas pede primeiro um tempo, de forma que possa despedir-se de seus pais.
Após um considerável tempo, e tendo dado um banquete de despedida, Eliseu, cumprindo o prometido, volta e põe-se ao serviço de Elias.
No Novo Testamento, Jesus encontra, ao longo de sua caminhada, uma pessoa pela estrada e convida este homem a segui-lo.
No contexto, o homem aceita. 
Entretanto, este pede a Jesus que ele possa, primeiramente, enterrar o seu pai que havia falecido.
Ao contrário de uma aceitação similar à de Elias, em situação relativamente parecida, Jesus não espera que o convidado resolva suas pendências para que possa então segui-lo: 'deixe que os mortos enterrem os mortos'.
Devemos estar atentos a estes chamados, e estar conscientes de que, na eventualidade de ocorrerem, e caso o desejo seja segui-lo, não é pra ficar pensando.
Ao aceite está associado um olhar novo.
Abraçar ao chamado do Senhor é desvincular-se completamente do passado...
Situação total de despojamento, de desapego.
É uma vida nova.
Detalhe: estamos a todo momento sendo convidados ao banquete com o Pai. Se não percebemos é porque o coração ainda não esteja aberto o suficiente para ler os sinais.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Limites


No início da vida, e pensando-se nos primeiros passos, dá-se mais atenção ao equilíbrio que ao destino.
Neste momento, conseguir estar de pé já vale como vitória.
Completada esta etapa, o destino já passa ser o esperado, posto que se esteja caminhando.
Por mais lento que seja o avanço, e por mais que não existam cobranças, espera-se chegar a algum lugar.
Passada a infância, gradativamente vão crescendo as demandas, as velocidades de execução das atividades no geral.
Na faculdade, dependendo do curso e das pessoas, obrigações do mundo acadêmico podem exigir entregas rápidas demais se comparadas à capacidade de atender às solicitações.
Isso fica irrelevante, se compararmos este ritmo ao do mundo corporativo.
Neste caso, os prazos de realização dos serviços são cada vez mais curtos.
Já não basta mais chegar, é preciso chegar logo.
Estamos desordenados, numa velocidade caoticamente progressiva.
E aí vem o questionamento: quanto mais se conseguiria acelerar?
Até onde vai o limite?
Metaforizando-se o tema com uma carruagem, e estando nós no comando da mesma...
Começamos passo a passo.
Depois de um tempo já estamos correndo.
Em ritmo frenético, e já acelerado, perdemos a noção real se a carruagem está à frente ou não do seu devido lugar.
E neste momento, o que fazer?
Sinais de que o mundo virou de pernas pro ar.
Mudou-se o fluxo natural de coisas.
Hora de parar, de realinhar tudo e cadenciar o que nos acerca.
É preciso ter uma alternativa, uma estrada nova.
Tem de haver um jeito!
Continuar correndo nesta exacerbação, sem tempo para reflexão e raciocínio, abre-se margem para um caminho em que se erra mais que se acerta.
É ultrapassar a linha de erros que, na nossa condição de humanos, já iríamos inevitavelmente cometer. 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Rotina

Ao longo do dia, a situação exige atenção.
A rotina começa cedo, bem próxima ao raiar.
O cuidado se inicia ao amanhecer.
Pela manhã, a visita já traz o banho.
A dificuldade de acesso e mobilidade requer cuidados especiais.
O corpo já franzino, e sem muita ação, pede carinho.
Passos lentos.
Movimentos peculiares.
Rotinas de silêncio.
Alimentação regrada.
Alerta constante.
Bem mais que as pernas, o coração e a mente caminham.
O desenrolar das tarefas imprescindíveis ajuda a abstrair pensamentos da realidade.
Não há tempo para racionalizar demais.
Forças sobrenaturais do alto dão suporte contínuo.
Nos pequenos detalhes, raios de sol incidem nas frestas, mesmo pela noite.
Formalidades sociais sugerem sempre alguma aparição inusitada: frivolidade, pressa, frieza.
Laços desfeitos.
Afetos dispersos.
Como obra do acaso, visitas humanas e espirituais.
Associações novas.
Fatos consumados.
Vida que se segue na rotina de idosos com mobilidade reduzida.

Brevidade

Andando pelas ruas, nenhum sinal de gente.
Raríssimos carros.
Ladeiras vazias.
Nem carroças, nem charretes.
É domingo, e o frio acomodou as pessoas em suas casas.
Venta muito.
Nas calçadas, muitas castanheiras, com as copas bem grandes.
Nos ares, uma verdadeira chuva de folhas secas.
Pelo chão, um tapete natural esconde o concreto, os ladrilhos, as pedras...
A ventania sinaliza a partida.
Folhas, que antes extraíram a luz do sol e gás do ar, colaborando com o crescimento, agora se despedem dos troncos.
Já não há mais seiva, já não corre vida nas veias.
Elas estão indo, mas fizeram a sua parte: edificaram as árvores.
Na orquestra da natureza, ventos ecoam notas de um réquiem, e celebram o término do outono.
Cerra-se um ciclo.
Sinais dos tempos.
Na nossa vida, situações semelhantes.
Tudo passa, e muito rápido.
Depois de uns anos vividos, percebe-se que o ponteiro do relógio corre mais rápido do que imaginamos. Nitidamente.
Nascemos para construir e produzir algo, pra fazer a diferença.
Talvez a consciência desta brevidade da vida, e a certeza de que um dia vamos partir, seja mais um tom para se refletir: o de que temos um tempo curtíssimo para contribuirmos e deixarmos um legado.
Mesmo que a dádiva que nos foi dada seja enorme, ela não é eterna.

Encontros

Aos poucos os carros vão chegando...
Alguns no horário, outros tradicionalmente atrasados.
Muitos percorreram longas distâncias para chegarem.
Saudações?
Quando existem, vão para conhecidos ou mesmo gente nova.
Visitas sempre trazem algo inusitado, desde o pavão até a avestruz.
O entrosamento é facilitado se houver proatividade e abstração de muitos detalhes.
Assuntos?
Mais de coisas, mais do alheio, menos da vida.
Aos questionamentos: respostas monossilábicas, frases curtas.
A etnia é muitas vezes a mesma. Mesmo assim, cada um nas suas individualidades e nos seus ostracismos.
Para os de mais idade, o fator tempo mostra que as mudanças foram mais externas: cabelos brancos, rugas...
A exaltação da prática da virtude mostra que os fariseus ainda existem.
O ambiente, acostumado a uma realidade com menos pessoas, muda rápido com tanta gente.
Dependendo do momento que se chega, espaços já estão limitados...
Um lugar aqui, outro ali, adaptações de uns, concessões aborrecidas de outros. Enfim, todos se assentam, todos se ajeitam.
É...
Unir esse povo todo nem sempre é fácil: distâncias, compromissos pessoais, correrias da vida, ausências propositais...
Para alguns, abster-se com justificativas nada persuasivas é ainda melhor que se mostrar fisicamente presente.
Para outros, a presença é condicionada às ausências de terceiros. Neste caso, algumas confirmações somente são na última hora.
Um olhar externo e imparcial observaria, nitidamente, todas estas descrições.
Para que a aglomeração aconteça, alguns se comprometem por todos. E com o passar dos anos, a conta sobra sempre para os mesmos.
Como em todos reencontros...
Para a maioria, ele é importante, agregador, emocionante... Para outros, uma obrigação inevitável, um fardo a carregar, que se transforma numa luta com as horas, com o relógio.
No cardápio, sempre algo atrativamente gastronômico, focado muitas vezes na diversidade.
Aos pratos, uma associação de paladares com sentimentos de outrora.
Receitas de antepassados, muitas vezes de entes queridos, dão um tempero adicional. E as especialidades no fogão de alguns podem fazer a diferença.
Se a cultura musical for grande, abre-se espaço maior para a emoção, com danças, cantigas, instrumentos... E com o ambiente musical, é mais provável que fique mais harmônico, mesmo que as notas vocais sejam dissonantes, pra não dizer desafinadas.
Se o assunto ficar muito sério e tenso, dependendo do tema, o caminho da conversa corre o risco de desviar-se para rotas do passado, com uma enorme possibilidade de exaltação de desafetos, afloramento de mágoas...
No final, tem sempre os que precisam ir antes do planejado, pelo excesso de correrias, atribulações. Por outro lado, há aqueles que insistem em ficar um pouco mais, seja pelo apreço e felicidade de viver aquele momento mais intensamente, ou seja mesmo pela total falta de percepção de que já gastaram suas cotas, suas fichas.
Nas despedidas, o compromisso de que em breve, irão se reencontrar.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Comunicação

O tempo todo devemos nos comunicar.
A interação com outras pessoas é algo imprescindível no mundo em que vivemos, sobretudo no meio globalizado.
Isso não é um problema para um ermitão, um silvícola…mas para pessoas que vivam da informação isso sim é necessário.
O meio familiar também exige isso de nós, posto que devemos conviver com pessoas consideravelmente difíceis, sobretudo em eventos onde, teoricamente, deveria se ir para distrair, para jogar conversa fora, para relaxar.
Entretanto, o ato em si não é tão simples para qualquer pessoa, exige todo um conhecimento prévio com quem se esteja lidando.
Conhecer as palavras certas a serem ditas a cada indivíduo é algo nada simples.
A simplicidade da comunicação pode tornar-se complexa numa fração de minutos, segundos.
Problemas já se iniciam antes mesmo da fala, através da linguagem corporal, seja pelo sorriso amarelo, as palavras proferidas dos olhos, o aperto das mãos…
A verbalização pode exigir tantos detalhes que, às vezes, a melhor resposta é o silêncio.
Acontece que em muitas situações, não tem como se fugir, e não nos é dada a possibilidade de fazermos um esboço, rascunho ou planejamento do que será dito.
Entender e racionalizar que existem pessoas de todo o tipo, e que todos têm sim direito ao exercício das suas individualidades já é um bom começo para aceitar, com serenidade, situações com as quais não concordamos.
Às vezes, devemos beber água sem ao menos estar com sede.
É ir vivendo pra perceber isso.
Nesse jogo da comunicação, surgem também algumas curiosidades inusitadas e intrínsecas.
Há pessoas que preferem conversar por email e/ou mídias das mais variadas, conseguindo se expressarem melhor que através do dialogo direto e tradicional.
Isso é válido?
Pensando-se numa premissa maior, em que o mais importante seja transmitir a informação, independente do meio ou canal utilizado, isso sim é plenamente aceitável.
Mesmo assim, eu particularmente prefiro o método tradicional: a conversa.

Lacunas

Com os pés descalços, uma longa estrada pela frente
Despedidas convertendo-se em adeus
Casas em ruínas
Hiatos
Lentidão acelerada
Rachaduras nas paredes
Frestas se abrindo
Mentiras emergindo das gretas
Descrenças nas verbalizações
Explicações sem persuasão
Chaves enferrujando
Portas cerradas
Frivolidades
Encontros impessoais
Palavras emudecidas
Ecos de silêncio
Serenata sem cantor
Aurora sem aubade
Pensamentos evasivos
Diálogos com o tempo
Olhar introspectivo
Meias verdades na penumbra
Luz ofuscada pelo céu nublado
Visitas desmarcadas
Lágrimas secas
Notas desarmônicas
Orfandades...
Acertos, desacertos
E na contramão... passos continuamente descontínuos.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Chuva


Outono terminando com prenúncios de inverno...
Folhas secas no chão e sinais que a renovação já iniciou seu processo natural.
A vida de muitas pessoas pode não mudar, mas da natureza sim. Aliás, intermitentemente. Ela segue seus ciclos, suas estações, mesmo que isso não seja rígido, tendo tido algumas ligeiras distorções climáticas nos últimos tempos.
Seguindo as características típicas desta estação no interior paulista: pouca chuva, tempo seco.
O período de colheita dos canaviais reforça as queimadas, que reduzem significativamente a umidade do ar.
Problemas respiratórios aos montes.
Ao longo do dia e ao entardecer, céu nublado.
Nuvens num tom cinzento traduzem um sinal típico da época.
A preocupação normal é com frio, não com chuva.
Porém, o inesperado para esta época.
Eis que surge a chuva, contradizendo as previsões do tempo.
Algo bem natural e correlacionado com a metáfora da vida, que mesmo planejando e se precavendo, somos surpreendidos pelo imprevisto, e pelos fatores externos que nos trazem o acaso.
A terra sedenta de água agradece, posto que nem esperasse por isso.
A intensidade suave das gotas que caem dos céus é agradecida e saudada com o início da noite.
A temperatura despencou, e o frio nos induz a hábitos estritamente caseiros: momentos para reflexão.
Nos arredores da sala, a penumbra e o jogo de luzes harmonizam o ambiente, conjugado com a insônia e regado, adicionalmente, pela cafeína.
Grãos torrados recentemente e moídos na hora exalam um cheiro genuíno e contemplativo.
Mesmo sabendo que o dia seguinte alerte para que levantemos cedo, os pensamentos que, ao longo do dia perdem espaços para as correrias, querem agora falar sobre pendências e pedem espaço para um diálogo reflexivo.
Do lado de fora, o silêncio da cidade reforça, de maneira uníssona, o ruído da natureza.
A serenata se manifesta nos ecos.
A brandura da queda insinua que o ritmo dos sons vai longe, varando a madrugada.
Lá pelas tantas, a serenata vai terminar, e no final dará seu último suspiro.
Mas o espetáculo não deve acabar, a turma do aubade já está pronta para comandar os sons até a aurora.

Divagações

Há um sentimento vagando por aí... Verbalizado nos mais extrovertidos. Ofuscado de distintas formas,  sobretudo nos âmagos mais fechado...