domingo, 23 de julho de 2017

Condicionamentos

No cais do porto,
um barco se prende a uma frágil corda.
Acostumado a pesadas âncoras do passado,
sequer imagina o que lhe sustenta:
uma corda bem enfraquecida.
Diferente do recorrente passado,
não se está mais preso como outrora.
A realidade desta barcaça pode mudar,
e esta mudança pode estar por um fio.
Porém, maior que a força física,
há uma inércia mental herdada,
um espólio cheio de preceitos obsoletos.
Pelos arredores,
indicações variadas avisam a possibilidade de mudança.
Muitos aspectos estão até explícitos demais,
mas a cegueira ofusca qualquer observação.
No baú de memórias,
ainda como fruto do presente grego da herança,
o enraizado condicionamento.
Na sinalização do tempo,
e eminência de novas tempestades,
o uivo dos ventos nem sequer consegue mandar seu recado.
Os próprios ouvidos não ousam escutar algo fora do convencional.
Ecos proferidos em vão.
(...)
A liberdade pode estar muito próxima,
não precisa haver sempre uma tormenta para a mudança dos fatos.
Uma leve brisa pode desestabilizar as volúveis estruturas.
A maior barreira está, em muitos casos, na amarração de velhos conceitos.
Na simples transformação do modo de olhar,
a possibilidade de grandes passos.
(...)
Estar atentos aos sinais nas cercanias;
atentar-se ao que se passa nos arredores;
escutar os ruídos do tempo;
abrir-se a novas ideias...
Componentes de auxílio para ver que circunstâncias podem sim tomarem uma linha nova.

sábado, 22 de julho de 2017

Silêncio

Silencio,
ingrediente a adicionar nas receitas da vida.
Seja qual for o cardápio e contexto social,
ele deve estar incluso nos temperos.
Condimento que não deve estar somente presente,
mas integrante de maneira expressiva,
combinando harmoniosamente com os demais componentes.
Juntamente com o silêncio,
inclusão de serenidade e paciência.
Relatar sobre isso,
quase uma utopia.
Na correria do cotidiano,
dificilmente se conseguem aplicar estes conceitos.
Em momentos turbulentos de pressão,
com o sangue fervendo nas veias,
perdemos a razão em variadas intensidades.
Por um fundamento instintivo de sobrevivência,
seguindo uma ordem natural,
parece existir a obrigatoriedade do ataque.
Uma espécie de ditadura da resposta,
algo implícito no ar,
onde temos de dar resposta aos fatos.
E nesta compulsão,
cometemos erros graves com nossas objeções,
disparadas em momentos tensos.
Silêncio...
Exercício necessário para preservar nossa identidade.
Comportamento de defesa e respeito a você mesmo.
Atitude para não se curvar a constantes afrontos do cotidiano.
Momento adequado ao sutil ofício da inteligência emocional.

Aspiração

Dentro de teu peito deve haver um cantinho.
Algum lugar que seja,
onde minha saudade consiga te sinalizar a dor desta ausência.
Deve existir este local,
sensível à telepatia,
vulnerável à lembrança.
Capaz de reagir e emocionar-se com minha mensagem.
Que na leve brisa das mensagens,
possa eu chegar neste coração,
descobrindo este caminho, 
nunca dantes trilhado.
Quisera ter,
meus versos ecoando na tua mente.
Chegando até ti,
pelos raios do sol,
ou pelo canto de um pássaro.
Quiçá por alguma foto antiga,
capaz de tocar neste sentimento.
Ou porventura,
de alguma forma sutil,
ainda não verbalizada,
mas forte o bastante para enternecer teus sentimentos.
Almejara eu...

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Diferenças

Ao ler um pouco de filosofia grega, veio a temática do amor, com suas definições e conceitos.
Em português, somente temos um significado para o mesmo, que pode se manifestar de distintas maneiras.
Na nossa língua oficial, várias situações vivenciadas por qualquer pessoa podem ser categorizadas unica e genericamente como amor.
Curiosidade: se interpretarmos o mesmo numa abordagem grega, esta definição é muito mais ampla, segmentando-se, particular e semanticamente, de três tipos: eros, filos/filia e ágape.
Se tirarmos exemplos de nossa música e literatura, temos citações das mais variadas na qual a temática é falar de amor.
Em Soneto de Fidelidade, Vinícius de Morais escreveu:
"(...) Que não seja imortal, posto que é chama ... Mas que seja infinito enquanto dure (...)".
Já em Chico Buarque, nos versos "De Todas as Maneiras", há uma exaltação enorme de um amor vivido intensamente, e considerando-se já ter explorado todas as formas de amar, o poeta diz:
"(...) Larga a minha mão, solta as unhas do meu coração (...)".
Numa interpretação à brasileira, está se usando a máxima articulação e encadeamento das palavras para se falar de amor. E a ideia aqui era citar, propositalmente, dois expoentes máximos de nossa música e literatura.
Mesmo assim, para o grego, este amor relatado na poesia poderia não ser tão grande assim.
Haveria ainda, muitos mares para se navegar em direção ao infinito.
Nos dois exemplos (Chico e Vinícius), teríamos somente um amor mais carnal, o eros.
Em contrapartida, a este amor muito mais intenso, completo e abrangente, temos o ágape.
Dentro deste conceito (mais profundo), diferentemente do que valeria para nosso idioma, a intensidade deveria ser reescrita, caso o propósito fosse traduzir este sentimento infinito:
•Ele não morreria, mas transcenderia à morte.
•Jamais desejaria ou permitiria que o outro partisse.
•Caminharia sempre junto, pois o amor não abandona.
•Não seria eterno enquanto durasse, mas ... duraria para sempre.

Travessias

 Em terras distantes, a busca por raridades.
 No remoto horizonte, o rastreio de flores ímpares.
 Na rusticidade do sertão,
 diligências de um coração.
 Orientado pelas estrelas, 
 impulsionado por sonhos.
 Ventanias e tempestades não impediram a travessia.
 Garimpo pela riqueza.
 Expedições. 
 Esforço descomunal.
 Em muitos momentos, compensações.
 Nos abrigos descobertos, 
 a possibilidade de dormir com as estrelas.
 Vida de perdas e dádivas.
 Balança que oscila intermitentemente, 
 no caminhar de tropeços e sobressaltos.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Mensagens

Nas notícias do vento,
a brisa ecoa mensagens.
Sucessão de conotações relacionadas a:
poeiras assentadas;
respostas assertivas;
tempestade acalmada;
fotografias reerguidas na parede;
acordos formalizados;
dívidas sanadas;
nós desatados;
porteiras abertas;
destinos alcançados;
sonhos consumados;
sossego prolongado.
...
Sinalizações improváveis no comunicado:
recados aparentemente retorcidos;
supostos devaneios;
provável dissonância.
A luz se apagou, ou o pulso parou.

domingo, 16 de julho de 2017

Maria

Dedicação exclusiva ao projeto de Deus.
Exemplo de mãe que se entrega, de corpo e alma, ao projeto do filho.
Fidelidade extrema na fé.
Na cultura brasileira, a visão de uma santa que está ao nosso lado. 
Somente aqui no país, são mais de 1100 títulos de nomes distintos dados a ela. 
Isso envolve locais, motivos, circunstâncias, momentos da aparição...O principal, Nossa Senhora da Conceição Aparecida, oficializado como a Padroeira do Brasil. 
Outorga realizada no final da monarquia, pela Princesa Isabel, que lhe deu a coroa de Ouro e o manto de proteção.
Na Bíblia, mencionada desde o primeiro livro, o Gênesis; passando entre os profetas do Antigo Testamento(Isaías, Jeremias...); pelo Novo Testamento, nos quatro livros do Evangelho, bem como no livro final, o Apocalipse.
Ultrapassa os limites do Evangelho, sendo responsável pelo começo da constituição da Igreja.
Vida sem reclamações, queixas...
Pessoa com um comportamento muito simples, sereno, sagrado e com amor nos pequenos gestos em tudo o que fazia.
Era conhecedora da realidade que a acercava e do seu mundo, mesmo com pouca idade.Ao dar o sim, assume valores sociais contraditórios à sociedade (hostil e hipócrita) com sua condição de grávida.Mesmo assim, encarou a realidade dos fatos, não hesitando ou se amedrontando com o risco de ser considerada adúltera por José, ou de mãe solteira pela sociedade. 
Teve convicção em aceitar o convite do Senhor.
Certeza de fortaleza e referência às mães lutadoras que, na prática, são diariamente sujeitas a esta condenação moral dos fariseus de hoje.A aceitação não foi algo infantil, apesar da idade de 16 anos. 
Houve maturidade sim, perguntando, inclusive, como seria a concepção, posto que não houvesse o ato em si.
Referência para entregarmos nossas falhas, mazelas, inseguranças...
Com seu sim, ela muda os rumos da história da humanidade.No parto, ela mesma o enfaixou e o pôs na manjedoura (compare ao modo que isso acontece hoje).
Desde cedo, começa a conhecer o destino do seu filho. E na trajetória de Jesus, segue sempre seu caminho, com participação ativa na vida do Messias.
No primeiro milagre, nas Bodas de Caná, já estava ela intercedendo: “Façam tudo que ele mandar”.
Força sobrenatural para suportar as dores do mundo, ao ver seu filho sendo perseguido, indo ao calvário e pregado na cruz.Conservava todos os fatos no seu coração, meditava constantemente, e jamais se vangloriou desta situação. 
Nunca se colocou como celebridade.Digna da Virgindade Perpétua, Imaculada, Mãe de Deus: dogmas concebidos pela Igreja.A morte e degradação da carne/corpo estão ligadas ao pecado. 
Porém, no seu caso, como não havia pecado, deu-se a assunção. E ela subiu dignamente aos céus, da forma mais sagrada e nobre perante os olhos do Pai.
Modelo de mulher, mãe, esposa: o máximo de referência para um ser humano.
Aparições?Por praticamente todas as partes do mundo.
Em muitos dos casos, ela se mostra à imagem e semelhança dos mais oprimidos, com aspectos físicos semelhantes aos moradores das regiões em que se revela.
Ela está acima de raça, cor, etnia, cultura...
No México, a Virgem de Guadalupe se manifesta na forma de uma índia, na época em que a nação asteca era devastada pela colonização espanhola.
No Brasil, como negra, no período obscuro e oprimido da escravidão.Em Fátima, Portugal, com trajes típicos simples de uma camponesa.
(...)
E pelo mundo afora, muitos milagres, profecias...
Personalidade reta, convicta, que se entregou integralmente, e como ninguém, ao plano divino. 
Deixou-nos um incomensurável legado.
Que ela sempre nos acompanhe e rogue por nós !

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Pensando no mar

Na imensidão do mar.
Movimentos contínuos.
No batido das ondas, metáforas a refletir.
Influências da Lua...
Marés altas, mares baixas.
Vida que ora vem, ora vai.
Chegadas, partidas.
Ressacas, invasões, arrebentações.
Inspiração dos poetas.
Para os gregos, menções a Poseidon. 
Para os romanos, citações a Netuno.
Aventura para navegantes.
Fonte de renda aos pescadores.
...
Ao longo das derivas, as vulnerabilidades.
Com as ilhas, a possibilidade do isolamento, a deserção.
Através da linha do infinito, a fuga para a pasárgada.
Pelas asas do albatroz, a carona para longos sobrevoos.
Com a gaivota, o esforço, o trabalho do sustento.
Nas profundezas, o abissal, o mistério.
Consoante à dinâmica na beira da praia, a pulsação.
E nos barulhos, o sopro de vida, a efervescência radiante por todos os lados.

terça-feira, 11 de julho de 2017

----------------------------------- Lembranças -----------------------------------

Saudade...
Lembranças
Sentimento forte que fica e que parte
Dualidade
Dicotomia
Inquietação pulsante da alma
Passageira da vida
Viajante do espaço e do tempo
Emoção concretizada em símbolos, em objetos
Manifestadas de formas diversas:
Cheiro da camisa
Abraços ternos
Ligação telefônica da madrugada
Lenços umedecidos de lágrimas
Doce de mamão
Almoço no domingo
Calça remendada
Bolsa arrumada para viagem
Café torrado e passado na hora
Arrumação de quarto
Carinho
E afins.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Limiar

Eu vim de longe.
De terras muito distantes eu vim.

Venho de lá das montanhas, mãe de algumas vertentes.
Impulsionado de pensamentos e sonhos.
Inspirado por conceitos, músicas, sonetos, versos, livros, ideias...

Eu vim com os ventos.

Vulnerável às brisas, ventanias e tornados...
Fadado às intempéries: frio, calor, chuva, geada.
Sinestesias aos montes.

Voando como um pássaro.
Passando por estações.

Quantas aerovias percorridas!
Nem bússola, nem gps.
Direções somente pelas asas e sonhos, no bater dos movimentos alados.

Por muitos momentos, necessidade de contornos nas direções dos ventos.
Visões e destinos constantemente revisados.
Alterações eventuais na proa, no decorrer de itinerários.

Cansado? Não.
Voar é preciso.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Partida

Se for mesmo partir...
E acaso isto seja mesmo inevitável...
Deixe algo comigo.
Que eu possa ficar com algo teu, posto que não vamos mais nos ver.
De repente, alguma canção, de fácil lembrança.
Algum poema, com letras sugestivas.
Porventura uma árvore, plantada num local protegido e acessível, que esteja associada a fatos vividos.
Quiçá algum vídeo, que traduza os momentos vividos.
Se for comprar flores, que sejam orquídeas, ao invés do buquê. O motivo? Postergar fisicamente sua presença nas rosas.
Se quiseres ainda, podemos contemplar juntos, mesmo que pela última vez, o pôr do sol; ou apreciar as estrelas na madrugada.
Reflexões...
Ainda haveria mesmo este tempo, se já existem alguns sinais de partida?
Oh Kairós, estaria eu pedindo muito diante das circunstâncias atuais?
Da minha parte, deixo aberta uma alternativa para tua ausência: que nos reencontremos nos sonhos.

sábado, 13 de maio de 2017

Mãe

No cotidiano, hábitos simples, contemplativos e serenos.
Por incontáveis noites frias, um cobertor.
Preocupações e tormentos vividos no silêncio, compartilhados muitas vezes só com a solidão e a madrugada.
Educação fundamentada em princípios nobres de fé, religiosidade.
Ensinamentos sobre o valor do trabalho, da luta, de Deus.
Vida dedicada à parte essencial da família.
Inúmeras vontades pessoais deixadas de lado.
Sonhos contidos, palavras emudecidas.
Lágrimas saindo pelas veias, não perceptíveis aos olhos.
Maestria em lidar com adversidades mascaradas no seio familiar.
Nas limitações financeiras, o despojamento pessoal para não deixar faltar nada. E na escassez de recursos, o empréstimo aos céus.
Em muitas arrumações de bolsas, o toque de carinho. Misturadas nas roupas bem passadas e limpinhas, manifestações de doçura, irradiadas no cheiro do amaciante.
E nesta irradiação, já em terras distantes, os ares explicitando sentimentos de afeto e saudade.
Em intermináveis ligações dramáticas, a paciência de escutar os lamentos.
Na presença ou na distância, as orações diárias, o terço, a intercessão ao Pai.
Pela essência das palavras, apoio, torcida, força, motivação.
E embasado em tudo isso, no íntimo do coração, a presença de um amor sem medida. Capaz de ultrapassar o inimaginável aos olhos do mundo, somente perceptível sob a ótica da fé.
Mãe, mãe, mãe.

domingo, 23 de abril de 2017

Ausências

Nos momentos de convívio, o bom relacionamento.
Período preenchido com histórias, contos, piadas, brincadeiras, passeios.
Nos reencontros, marcas de atenção se mesclam com algumas desavenças inevitáveis de quem, por dias, mantém-se ausente.
Na maior parte dos dias, a rotina é assim.
Relacionamentos sobrevivendo, por anos, com o absenteísmo físico de um dos parceiros.
A presença deste membro, costumeiramente ausente, só ocorre mesmo através dos recursos tecnológicos.
Às eventualidades emergenciais dos que permanecem em casa, a desilusão de que o ser ausente não pode ajudar.
Ao ser longínquo, um drama vivido. A impotência de, pessoalmente, poder ajudar a família. Pode-se, ao máximo, torcer e orar para que as tormentas remotas acabem logo quando de suas ocorrências.
Pelas batidas do coração de quem vai, justificativas necessárias de sobrevivência, demandas corporativas, gosto pela profissão. Outra possibilidade: a necessidade pessoal de estar ausente consigo mesmo de forma mais frequente... Há circunstâncias de todo tipo.
No âmago de quem fica, uma maneira particular de levar a vida nestas condições. E em cada um destes corações, a suposta adaptação a estas circunstâncias. Uma forma ímpar de conduzir e tocar a vida com a presença dessa ausência, paradoxalmente falando.
Ao cônjuge que permanece, a responsabilidade de cuidar de tudo em casa. Um vazio desmedido, muitas vezes não compartilhado com os filhos.
Reina o companheirismo, sem estar acompanhado.
Em havendo, porventura, crianças neste contexto, a vivência temporal das orfandades nestas.
Difícil não existir um vácuo sentimental temporário.
Vidas e vidas...
Em cada uma delas, distintas circunstâncias, dramas, inevitáveis incompletudes. E em todas elas, a presença da solidão...

quarta-feira, 22 de março de 2017

Saudade

Por vários momentos, a vontade de encontrar algumas pessoas.
Desejo de estar com alguém em específico, e em situações das mais diversas: aprisionamento do coração.
Nas lembranças, a vivência com instantes sôfregos e almejantes.
A ansiedade se mistura com a consternação.
No pensamento, um desassossego sem medida.
Pelas veias, um pulso inquietante.
Através da percepção alheia e externa de outrem, a constatação de que a mente está em distantes terras.
Olhares abstratos e evasivos.
Em meio a uma mistura de sentimentos efervescentes do coração, uma torrente manifestação se explicita em dor física, sem dizer de onde vem.
E nesta angústia, a busca do remédio para sanar este desejo incontrolado: a vontade do encontro.
Devaneios geram alforria da mente.
A simples iminência do abraço já traz uma nova dimensão ao tempo.
Basta uma vaga ilusão do reencontro para gerar uma libertação efêmera e ilusória da alma, um desenlace de muitos entraves e apertos.
Neste cenário, de abstrações e pensamentos etéreos, minutos se redimensionam em horas.
Saudade...
Chama que se acende no subjetivo mundo das ideias, no universo onírico.
A muitos, este desejo lépido pode se efetivar, e o reencontro consegue remover as angústias oriundas da ausência.
Entretanto, a outros não, devido à impossibilidade física ou humana.
E aos privados desta oferenda, um drama.
Um vazio que poderia se metaforizar por noites eternas sem estrelas; primaveras sem as flores e o canto do sabiá; alvoradas sem o sol; um presente com a caixa vazia; vida sem música e poesia. Enfim, tudo que convirja a uma sensação de impotência, letargia, inércia...
Para estes desprovidos do reencontro, somente uma alternativa: o contentamento, a complacência.
A serenidade para aceitar e entender, com sabedoria, quão limitados somos perante a vida.
...
Não conseguiremos matar todas as saudades.

domingo, 5 de março de 2017

Limitações humanas

O bronze reduz-se ao nada.
No cedro, troncos retorcidos.
O sol do meio dia se converte na escuridão da madrugada.
Na vasta floresta, a transformação instantânea em deserto.
Ao conhecimento, a utilização infecunda e o desnecessário.
Nas tormentas, a chegada da calmaria em segundos.
Com as grandes estruturas, a deterioração, o pó.
Em meio ao barulho estremecido e intermitente, a chegada do silêncio.
Do batido forte e intenso das ondas, ao abrandar sereno das águas.
No coração amargo e engessado, o perdão e a serenidade.
Do corpo já morto e inebriado de cinzas, a vida nova.
Ao cansaço e fadiga extremos, o revigorar das energias.
É...
Metamorfoses instantâneas desta grandeza e amplitude, somente nos chegam pelas mãos do Pai.
Temos o livre arbítrio, tomamos decisões e comprometemos nosso futuro consoante a nossas escolhas.
E o mundo tentar criar uma falsa ideia de que há um poder ilimitado do homem.
Isso faz parte das ilusões humanas, a de superioridade e comando pleno do desenrolar dos fatos.
Nossa autonomia é ínfima e insignificante diante das forças do Supremo.
Somos limitados perante as dimensões do infinito.

sábado, 4 de março de 2017

Volver

Nas bagagens, os sinais do retorno.
Depois de um longo tempo de viagem, eis a volta.
Nos caminhos percorridos, terras distantes: algures, alhures...
Com uma locomoção que muitas vezes não significa a evasão do espaço.
No regresso, um coração de saudades.
As lembranças dos fatos vividos remetem ao desejo de reviver fatos consumados outrora.
Experiências revividas nem sempre serão as mesmas.
O tempo dificilmente repete, em sua essência, momentos já decorridos no passado.
No bom português, o pretérito é perfeito, ou seja, é fato consumado, já acabou.
Quem, de fato, um dia partiu por um tempo, raramente volta vazio ou inerte às interferências que a evasão lhe proporcionaram.
As malas físicas podem até voltarem vazias, mas o âmago não.
Dificilmente se está desguarnecido.
Quem volta, traz consigo um coração novo, incorporado de novas experiências: doces, amargas, salgadas...
Aquele que um dia se foi tem muito mais sensações que somente lembranças e saudades.
Na recomposição das peças do passado, muitos fatores novos não se encaixarão neste quebra cabeças.
Impossível voltar sendo exatamente o mesmo.
Inconcebível querer ser como dantes.
“Não se banha duas vezes no mesmo rio”.

Thánatos

No cinema, muitas películas: Invasões bárbaras, Antes que o dia termine, Quatro semanas, Antes de partir, A partida...
A proximidade com a morte de pessoas próximas é uma temática frequente no cinema.
Exemplos de filmes não faltam.
Do grego, thánatos.
No cotidiano, este drama tanatológico sai da ficção e vira uma dura realidade na maior parte das pessoas.
Em meio às circunstâncias deste cenário, manifestações, indícios, pressentimentos...
O coração bate consoante à sinalização de uma provável iminência da partida final.
Nestes momentos de convivência com o suposto viajante, um ar diferenciado.
Um misto de melancolia com a oportunidade de poder estar ali ainda para, porventura, acertar alguma pendência ou desentendimento.
Instantes em que a vida se enobrece de grandeza, ganhando outra conotação e notoriedade.
Restrições variadas de outrora acabam se convertendo em uma deliberação.
O momento assume sempre um ar de último instante.
Um extremo paradoxo de leveza e despojamento se misturam com uma dor existencial.
De modo metafórico como numa peça teatral, onde literalmente nos deparamos com a vida real, é como se estivéssemos vivendo o epílogo: hora do desfecho.
Despedidas transitórias ganham um ar mais profundo, o de adeus.
E nesta incerteza da vida, a de não sabermos exatamente se, de fato, será o último suspiro, vivemos este instante com um ar de angústia.
Sinestesias variadas: o toque das mãos, a temperatura da pele, o olhar mais detalhista, a audição mais atenciosa...
É uma explosão de sentimentos.
Inevitável o derramamento de lágrimas que, não necessariamente, são explícitas. Às vezes, elas saem secas.
Viver é isso...
Alimentamos de sinais, que nem sempre se consumarão imediatamente em fatos.
Um dia chegamos, noutro partimos.
O ponto exato de quando estes dois fenômenos se efetivam é um mistério.
Uma limitação inerente a nossa condição de humanos, a de não sabermos do futuro.
Porém, é algo que vai ocorrer com todos nós.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Reflexões

Nos arredores da praia, a clara percepção do sossego.
A temporada do agito já passou.
Ruídos e barulhos somente da natureza.
Quebra das ondas, canto dos pássaros, uivos dos ventos.
Andarilhos esporádicos e de passagem surgem somente para mostrar que o ambiente não está puramente desértico, mas não incomodam nem um pouco.
O cenário é de paz, convidativo ao descanso.
Momento de pensar em tudo com serenidade.
Ideias emergindo.
Início de um diálogo afônico entre pensamentos e imagens visíveis que nos acercam.
Neste ensejo, dicotomia entre os tempos presente e futuro.
...
No horizonte, a linha imaginária e ilusória do infinito.
E na mesma ilusão dos céus tocando o mar, uma similaridade com preocupações do futuro.
No amanhã, um emaranhado de planos, conjecturas.
Desperdício enorme com aflições, ansiedades.
Mudando o foco...
A energia que não para no relógio do tempo.
Na dinâmica da respiração, a certeza do presente.
Nesse imediatismo, manifestação de surpresas e encantamentos na simplicidade.
Aqui as possibilidades se convertem a fatos.
Pela visualização e sonoridade, o batido das ondas.
No enfrentamento final das águas com a areia da praia e os rochedos, a natureza nos mostra a dinâmica do cotidiano.
Pelos arredores, a busca em detalhes nos surpreende.
Vida pulsando por todos os lados.
Nas areias, pequenos seres defrontam-se com o movimento das ondas.
Peixes saltitantes emergem das aguas.
Gaivotas atentas sobrevoam as proximidades, e observam a vulnerabilidade de suas presas para poder capturá-las.
...
E nesta convergência de tempos, vem algumas reflexões.
Depois de alguns tempos vividos...
Quantas insônias em vão!
No olhar desmedido no futuro, o consumismo de problemas que, não necessariamente vão se consumar.
Exaurimos energias aos montes.
De forma paradoxal e um tanto pleonástica, antecipamos e sofremos com a chegada de algo vindouro que não virá.
...
O prudente mesmo é viver os fatos no seu tempo.
A cada dia, uma preocupação. 
Por mais que o amanhã deva ser planejado, em nossas mãos está o hoje.
Focar um dia por vez nos problemas pode tornar o peso das cruzes mais leve.
Talvez este seja um dos segredos do viver.
Com o foco no presente, temos a possibilidade de dedicarmos intensamente na remoção nas pedras no caminho ao longo desta travessia.
E nesta viagem diária, a certeza de deslumbrar-se com a beleza da vida, manifestada nas pequenas belezas, minúcias, e sutilezas do cotidiano.

Condicionamentos

No cais do porto, um barco se prende a uma frágil corda. Acostumado a pesadas âncoras do passado, sequer imagina o que lhe sustenta...