sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Interlocução

Pudesse eu te encontrar de novo,
ligar novamente nas madrugadas, 
falar de futilidades,
extrair gargalhadas evasivas pelo tardar da noite,
ou mesmo para preencher tuas insônias.

Saberia eu,
que teus ouvidos me escutariam,
e, com braços abertos,
ainda que remotos, receber-me-ia.

Gostaria eu,
como outrora,
poder vagar contigo pelas ruas,
adentrando em estradas que não conhecia,
passeando em incontáveis locais de afinidade recíproca.

Ademais,
sentarmos à mesa,
degustarmos novos sabores,
visitar bares, padarias...

Vagarmos ao vento,
papear tolices,
ouvir histórias banais,
por mais que muitas delas já fossem repetidas.

Desejaria eu,
escutar-te os cantos,
concomitantes aos prantos.

Felicitar-me-ia em ouvir contigo, 
repetidamente,
muitos clássicos: bolero, tango, samba canção.

Reviver a tua bohemia,
diante dos descritos, dos contos...
E regada à magia de um tempo que não volta mais.

Almejaria poder pedir-te ajuda,
com a premissa de que,
mesmo com tuas limitações,
e sem entender direito as demandas,
prontificar-se-ia em ajudar.

Queria eu mostrar-te os netos que,
emudecidamente,
verbalizaste este desejo:
acolhedoramente os receberia.

Ademais,
gostaria de falar-te das sementes,
aquelas que,
inconscientemente,
plantaste.
Comunicar-te-ia...
Que muitas delas germiram,
edificaram e floresceram,
conquanto não tenha visto.

Saudosismos...
Nostalgias e afins...

É...
As cores com que pintaste o quadro de tua vida deixarão eternas lembranças,
não somente as de tonicidades cinzentas.
E esta moldura ficará delineando,
eternamente,
as bordas do meu coração.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

O banquete

Planejamentos da vida...

Percorrem-se longas estradas,
desviam-se de muitas pedras,
carregam-se fardos...

Abstém-se de muitos momentos,
pensando-se na melhoria das condições de vida.

Realizam-se sacrifícios para a família...

Após um tempo,
colheitas.

O tempo passa,
e o suor,
concomitante à semeadura,
muitas vezes,
materializa-se positivamente.

Chega a hora da celebração,
do agradecimento das flores germinadas,
dos frutos produzidos...

Momento de divagações, agradecimentos.

Contexto para verbalização de quão importante é o esforço,
e quão imprescindível é a semeadura.

Na composição da ceia,
ausências lamentáveis.

Protagonistas e,
por hora,
coadjuvantes,
em toda esta trajetória,
ficaram pelo caminho.

Pessoas dignas que seriam de sentar-se à mesa já partiram....

Dramas da vida: vamos preparando o grande banquete ao longo dos anos,
sem,
necessariamente,
sabermos se estaremos presente na grande celebração.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Futuro

Futuro...

Chama que se consome de esperança,
que nos convida e estimula a prosseguir,
a dar o próximo passo,
em trajetórias muitas vezes incertas,
rumo a locais inóspitos e inimagináveis.

No âmago,
um impulso a acreditar no acaso,
a crença em vislumbrar ser possível usufruir do inusitado,
e na abertura de novos horizontes,

No coração de um pai, 
coragem e enfrentamento com a realidade,
ainda que algumas portas venham a se fechar.

E uma certeza:
a de que os passos,
mais significativos da vida,
não são dados sobre caminhos convencionais,
mas sobre as águas, sobre as nuvens.

domingo, 30 de setembro de 2018

Notações do Tempo


Sob a copa da cerejeira,
no terno gesto de apreciação, 
desfolham-se pétalas.

Num curto intervalo de dias,
a sinalização do início da primavera.

Festival do Hanami...

Na queda,
uma simbologia,
muito além de um ciclo da natureza.

Sinais de quão breve é a vida,
quão únicos e passageiros são os momentos.

Ainda que flores exaltem sua beleza,
e mesmo que elas tenham se embebedado das gotas do orvalho,
elas se mostram não serem eternas.

Em cada uma,
das incontáveis pétalas que caem,
instantes de vida,
agrupados no magestoso tapete formado debaixo da copa,
sinalizam o tempo que se consome,
nas partículas que vão se levando.
É o fim de um ciclo.

Para as que não são infecundas,
o legado,
a continuidade.

É...
Os olhos veem a partida...
E nos ouvidos,
Sinestesicamente,
uma sensação sonora se traduz num réquiem,
no belo e final ciclo da sakura.

Em tudo isso,
reviravoltas e dinamicidade da vida.
Chegas e partidas rolando...
Concomitantemente... e no mesmo evento.

Simbologias da brevidade:
Depois de muito trabalho,
e após a colheita dos frutos,
preparamos a mesa, o banquete,
e,
de repente,
a vida nos leva antes da ceia.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Rebuliço


Na avidez, na afobação,
a impossibilidade de conhecer os detalhes.

A correria não sabe onde residem as sutilezas.

Ao leitor afoito,
uma dificuldade de interpretar entrelinhas.

Através do giro acelerado do relógio,
o ofuscamento dos sentidos.

Sinestesias acobertadas.

Na alimentação,
a voracidade,
que compromete a degustação.

Sabores, temperos, especiarias:
apreciação comprometida.

Diante das avaliações,
a afoiteza gera vereditos superficiais,
na maioria injustos.

Nos diálogos,
a impaciência para ouvir,
e de tentar entender o outro.

Ao viajar,
o afã de somente chegar.
A irrelevância com a trajetória,
e somente com o destino.

Pra que tudo isso?

sábado, 25 de agosto de 2018

Infortúnios

Pelos arredores,
embaraços, 
resistências, 
vicissitudes.

Dificuldades de leitura e tradução do texto da vida,
camuflado nas entrelinhas.

Limitações humanas na tomada de decisões.

No cotidiano,
a necessidade de reger a orquestra da vida,
fadada a músicos e instrumentos dissonantes.

Pelos meandros dos acontecimentos,
a demanda por trajetos contra a correnteza.

E uma necessidade contínua de aprimoramento de habilidades subjetivas.

No coração,
a busca contínua pelo equilíbrio,
e a coragem de sempre prosseguir,
neste universo de incertezas e instabilidades.

Entre rabiscos e anotações


Muitas vezes, a matéria prima para a escrita são os acontecimentos da vida.

Fatos e pensamentos que nos acompanham ao longo do cotidiano.

Sentimentos, relatos, angústias, alegrias, surpresas:
uma plena convergência de fatores,
capazes de se misturarem.

Alojam-se na mente e,
aos poucos,
vão se externando pelos manuscritos,
sobretudo naqueles que se envolvem com as palavras.

Na tentativa de buscar um nexo entre fatos,
a possibilidade de mesclar letras com pensamentos.

Aspira-se pelo preenchimento de vazios,
neste contínuo exercício de divagação de ideias.

No emaranhado de conjecturas e interpretações multifacetadas,
a descoberta,
muitas vezes surpreendente e inesperada,
de pontes ao longo da vida.
Elos, conexões...
Uma junção capaz de dar sentido a pensamentos que,
a princípio,
denotavam completa divergência entre si.

Caminho das palavras...

No labirinto de aliterações e fonéticas,
refinamentos vão delineando uma semântica,
criando algo que dê coerência a quem escreve.

Rabiscos, anotações...
Versos chegam e,
de repente,
muitos deles precisam desaparecer,
posto que perdem sentido na obra inacabada,
e que está vulnerável a constantes lapidações.

Na prática deste ofício,
a possibilidade de diálogos consigo mesmo.
Um pleno exercício de liberdade,
num universo cujos protagonistas são vogais e consoantes.

E pelos rascunhos, citações, aforismos, 
uma uma certeza: a de que não se caminha só.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Abstrações, pensamentos, impossibilidades


No retrovisor interno,
um olhar desconcertante.

No movimento da estrada,
olhos se desvirtuam,
de forma ocasional,
para minha princesinha.

Sentada numa singela cadeirinha,
que emocionalmente elucida um trono,
sinto-me maravilhado com seu olhar...

Pureza, simplicidade, inocência, amor sem medida...

E na dinâmica do carro,
ainda que na lentidão dos caminhos percorridos,
e mesmo que na forma de segundos,
tudo vai ficando para trás:
imagens, momentos, lugares, infância.

Sensações...
Quão rápida se consume a vida !
Em pouco tempo, quiçá serei eu o conduzido.

No pensamento,
um coração com a ingênua vontade transcendente,
a de abraçá-la firme nos braços,
como se pudesse parar as horas,
ou congelar os instantes.

Ao relógio, eu o desligaria.
Quanto à ampulheta,  esvaziaria-lhe os grãos.
E ao momento, eternizá-lo-ia.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Caminhos


Um simples coração,
de terras distantes veio andando pela estrada.
Pelo trajeto,
um destino indefinido.
Conduzido levemente pela brisa das manhãs,
outras vezes acelerado pelas ventanias.
Na quietude,
a impessoalidade de um andarilho.
Por ora,
arrastado pela correnteza das chuvas,
sujeito à indiferença dos olhares.
Por vezes,
conduzido à irrelevância alheia.
Fadado à vulnerabilidade de uma folha seca,
levada aleatoriamente no espaço.
(...)
Por obra do acaso,
movimentos de brandura,
tal como um rio passando pelo remanso.
E no inusitado,
a vida floresce sobre as cinzas.
(...)
É...
Viver é isso...
A cada momento,
algo de novo, de surpreendente, de incerteza...

domingo, 3 de junho de 2018

Tempo corrente

Na semelhança com o batido das ondas,
o movimento intermitente.

Tempo: algo que se consome sem parar,
que independente do desenrolar dos fatos,
não cessa de girar: dispêndio inevitável.

A cada segundo,
um grão de areia perdido da ampulheta.

Um rio que corre infinitamente.

Ele nos leva por longas estradas,
no perpassar dos anos,
criando em nós vínculos.

Apegamos às pessoas, locais, coisas...
Nos apaixonamos...
E, de repente,
desconstitui todo este fluxo,
levando-nos pessoas,
sentimentos...

Arranca-nos pessoas,
não deixando muitas vezes,
ao menos dizermos adeus.

Legados?
Conseguiria ele nos deixar algo?
Reminiscências ?
Somente a possibilidade de encontros futuros,
mas através dos sonhos.
Olhares? Só com as miragens das estrelas.

Viagens


Nas viagens a locais distintos,
muitas vezes se vai em busca de algo peculiar, 
que nos faça encontrar com um pedaço de nós mesmos,
ainda que nem percebamos.

Como num paradoxo,
na procura por fatores externos,
a tentativa de preenchimento do âmago pelas subjetividades.

De forma inconsciente,
por muitos locais que passamos,
haverá sempre aqueles em que deixamos algo de nós,
ainda que de maneira abstrata.

O coração,
sabendo destas lacunas e incompletudes,
induz os passos e decisões a estes destinos.

E ao regresso a estes locais,
que porventura se esteja indo pela primeira vez,
um reencontro consigo mesmo.

sábado, 2 de junho de 2018

Source thoughts














































Rendição


Ao longo dos mistérios,
súplicas a Nossa Senhora...

No sequenciamento de ave-marias,
pedidos, conversas,
evasão de pensamentos.

Momentos de conforto,
leveza e acolhida no diálogo espiritual.

Concomitante aos versos,
instantes vagos para refletir sobre posturas
e comportamentos ao longo dos dias.

Horas de se pensar nas aflições, pendências, entraves...
Medidas que poderiam ser tomadas diante dos fatos...

Na sintonia com os céus,
e emergindo da oração,
o sopro mariano: epifania.

Na análise de ações realizadas,
sinalizações incitam clareza...
Explicitam-se que medidas humanas já foram tomadas,
no universo e cenário de viabilidades.

E a exemplo de Maria,
constatações...
O instante requer,
ao contrário de alardes e movimentos,
o silencio.

Momento de praticar o exercício da fé.

Fase exclusiva da entrega, da rendição.
Hora de se deixar conduzir pelos céus,
a fim de que Deus possa operar,
no Seu devido tempo,
a Sua vontade.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Nostalgia


No silêncio da noite,
após algum tempo da partida final...

A saudade continua bater no coração.

De forma desmedida,
pulsa aqui dentro um desejo de abraço.
Vontade de vê-lo,
tocá-lo.
Na realidade dos fatos,
a aspiração de algo humanamente impossível.

Sentimento convertido em dor física.
Lágrimas escorrem do coração,
salgando meus lábios,
e molhando minha face.

Lembranças...

Nos artifícios da memória,
somente a possibilidade do reavivamento de fatos vividos.

Cidades, ruas, prédios, cafés, igrejas, avenidas, pontes;
Passeios, caminhadas, visitas;
Canções;
Gestos, manias, cacoetes;
Histórias, contos;
Frases repetidas;
Roupas e acessórios próprios;
Despedidas de outrora: melosas, chorosas;
Ansiedades, aflições.

Telefonemas na calada da madrugada...

Por muito tempo,
esta chama de saudade vai percorrer nas minhas veias.

E ainda que passem os anos, este meu sangue vai pulsar por você.

Interlocução

Pudesse eu te encontrar de novo, ligar novamente nas madrugadas,  falar de futilidades, extrair gargalhadas evasivas pelo tardar da ...